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Combater o ódio para lembrar Tishá BeAv

Por Michel Gherman
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Uma vez eu estava sentado nos degraus perto da Cidadela de Davi com dois pesados cestos a meu lado. Um grupo de turistas estava ali, ao redor de seu guia, e eu me tornei um ponto de referência: "Veem aquele homem com os cestos? Um pouco à direita de sua cabeça há um arco do período romano". E eu disse comigo: a redenção só virá quando alguém disser a eles: "Veem aquele arco do período romano? Ele não tem nenhuma importância, mas ao lado está um homem que acabou de comprar frutas e verduras para sua família".

Yehuda Amichai


As últimas semanas foram de muita tensão na cidade de Jerusalém. O setor antigo da cidade foi palco de confrontos, violência e atentados. No coração da Jerusalém antiga, na região chamada pela tradição judaica de Monte do Templo (Har Habayit) e pela tradição islâmica de Esplanada das Mesquitas (Al-Haram ash-Sharif), houve de quase tudo. Enfrentamentos, manifestações e morte.

Entretanto, não é sobre isso que gostaria de falar. Já circularam inúmeras análises sobre o que está acontecendo. Gostaria de escrever sobre a motivação básica para que judeus e islâmicos se sintam tão conectados àquele lugar, e buscar entender o significado da crise de Jerusalém no calendário judaico.

Para os judeus, a colina detrás do Muro das Lamentações funcionou como centro espiritual político, religioso e cultural do judaísmo por mais de 1000 anos. Para os muçulmanos, foi justamente naquele local que o profeta Mohamad ascendeu aos céus, estabelecendo-se aí um vínculo atávico. Negar, desconsiderar e rejeitar o direito a memória de qualquer um dos grupos é uma forma de violência que deve ser repudiada.

No calendário judaico, o atentado ocorre justamente no período do ano chamado de “Ben HaMeitzarim”, que faz referência ao início do cerco romano a Jerusalém, e se desenvolve até a destruição do templo e o início do exílio dos judeus, no ano de 70 D.C. Nesses dias, judeus mais religiosos se abstém de comer carne, fazer a barba e escutar música. O período se encerra no dia 9 do mês de Av (Tishá BeAv), marcado por profunda tristeza e luto. Judeus fazem jejum e preces pela reconstrução de Jerusalém.

É possível entender o “Ben HaMetzarim” e o “Tishá BeAv” a partir de uma perspectiva exclusivamente religiosa. Entretanto, fontes judaicas exigem que pensemos de forma mais aberta e crítica. 

A partir delas, entendemos que o motivo da destruição do segundo templo, foi causada por “ódio gratuito” (Sinat Chinam). Sim, segundo essas fontes, o motivo de o centro judaico e a presença divina terem sido destruídos foi a falta de percepção da alteridade, o desrespeito pela diferença, o ódio sem motivo por quem não é como nós. 

Nada mais relevante e necessário para os dias de hoje do que pensar nesses termos.

Nesta segunda feira à noite começamos o Tishá BeAv. Judeus religiosos fazem jejum e orações, enquanto judeus seculares aproveitam a data para debater questões contemporâneas, refletindo sobre o mundo que nos cerca. Esse ano, quando Tishá BeAv foi precedido por momentos de tensão em Jerusalém, esperamos que seja possível pensar em como evitar a próxima destruição, possamos reconhecer a existência do outro e que lutemos pela liberdade de todos que estão próximos a nós. 

Ou, como diria o profeta Yehuda Amichai, que percebamos mais o senhor que volta da feira com a sacola de verduras para sua família do que as pedras que formam o arco de Tito.

Tomara. Inshala. Allevay


Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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