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O exército de Deus não tem cemitérios

Por Marta Topel
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Na segunda semana de setembro passado, Jerusalém foi o cenário de uma manifestação de milhares de judeus ortodoxos que protestavam contra o veredito da Suprema Corte que se expediu contra a eximição de jovens ortodoxos do serviço militar.  Os confrontos com a polícia foram violentos e, mais uma vez, diferentes setores da sociedade israelense como parlamentares, grandes rabinos, juízes, políticos, ONGs, militares, jornalistas e a sociedade civil como um todo foram obrigados a se posicionar em relação ao que em Israel se conhece como shivión ba´netel (igualdade em carregar o fardo).  

Mas, o que significa “igualdade em carregar o fardo”?  Essa expressão surgiu há não mais de uma década e parte do pressuposto de que na sociedade israelense, inclusive na sociedade israelense judaica, existem cidadãos de primeira e segunda categoria, já que, enquanto uns estão obrigados a se alistarem no exército, outros são eximidos de fazê-lo. A reivindicação de dividir o fardo em partes iguais é uma demanda dos setores seculares do país que pagam altos impostos para sustentar uma população que em sua maioria nem trabalha, nem serve no exército. "Igualdade em carregar o fardo” tem como objetivo que, apesar das profundas rupturas nacionais, étnicas e religiosas da sociedade israelense, prevaleça o princípio universal de que todos os cidadãos são iguais diante da lei, tanto para receber direitos como para cumprir os deveres exigidos pelas diferentes instituições do Estado.

A história da eximição dos homens ortodoxos do serviço militar (obrigatório para todos os cidadãos israelenses judeus) é longa e começa antes do estabelecimento do Estado de Israel em 1948. Um ano antes, com a partilha da Palestina no horizonte, Ben-Gurión assinou um acordo com o partido ultra-ortodoxo Agudat Israel no qual se comprometeu a respeitar quatro demandas dos setores ortodoxos no que diz respeito à herança religiosa judaica que vigoraria no futuro Estado judeu. Uma delas foi a eximição dos estudantes ortodoxos de fazer o serviço militar.  Em 1947, ano da assinatura do documento que posteriormente ficou conhecido como Status Quo, o número de jovens dispensados do serviço militar era de umas poucas centenas. Hoje a situação mudou e o número dos jovens ortodoxos eximidos do serviço militar atinge milhares. Segundo dados do Exército de Defesa Israelense, 27,7% dos homens que não servem no exército são judeus ortodoxos.

Diante desta situação, em diversas oportunidades houve tentativas de coagir os ortodoxos a servir no exército, seja através de comissões que estudaram a fundo a questão, como a Comissão Tal em 1998, seja através de uma acolhida especial aos poucos ortodoxos que por própria vontade se alistaram no exército, criando unidades especiais para eles. Contudo, essas medidas não conseguiram incorporar massivamente os jovens ortodoxos em idade de servir no exército, fenômeno que fez crescer o mal-estar entre os setores seculares e, em menor medida, entre o setor identificado com o nacionalismo religioso.

A razão das manifestações foi um veredito da Suprema Corte de Justiça liderada pela juíza Miriam Naor, com uma maioria de oito contra um, segundo o qual a lei que exime os ortodoxos de servir no exército caducará em um ano. É relevante citar a descrição dos juízes da Suprema Corte em relação à lei em questão: "ela discrimina entre homem e homem, entre sangue e sangue”. (Haaretz, 12/9)

Com certeza essa não será a última manifestação multitudinária de judeus ortodoxos reivindicando privilégios para seu setor e/ou repudiando vereditos e decisões de órgãos estatais. Devemos lembrar que os partidos ortodoxos não reconhecem a legitimidade da Suprema Corte israelense e, por isso, não se sentem compelidos a acatar suas resoluções. Privilégios como o de não servir no exército têm diversas funções simbólicas entre as quais destaco duas. A primeira é manter intactas as fronteiras do “gueto ortodoxo”, evitando que jovens observantes interatuem com judeus seculares no cotidiano e, consequentemente, possam questionar o modus vivendi ortodoxo. A segunda é reforçar o status marginal da ortodoxia na sociedade israelense desvinculando-se de uma das instituições mais importantes e prestigiosas do Estado de Israel, Estado que muitos ortodoxos sequer reconhecem como entidade política. Finalmente, embora haja muitas outras considerações a serem discutidas, para as lideranças ortodoxas os judeus observantes que estudam nas yeshivot são os verdadeiros defensores do povo de Israel e não os soldados das forças de defesa israelenses.

Ao olho aguçado de quem conhece a sociedade israelense e suas múltiplas facetas, a implementação da lei no ano próximo não estará isenta de violência física e verbal (esta última, principalmente por parte dos grandes rabinos e seus representantes políticos no Parlamento), e provavelmente sequer seja implementada no intuito de evitar profundar a brecha entre os setores ortodoxo e secular na sociedade israelense. Outro tópico que ameaça o cumprimento da lei é que ela colocaria em risco a coalizão governista do momento na qual, como sempre aconteceu na história do país, os partidos ortodoxos formarão parte.



Marta Topel é antropóloga, pesquisadora e docente, diretora do Centro de Estudos Judaicos (USP).

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