Colunistas • Marta Topel • Documentário One of Us mostra faceta pouco conhecida da ortodoxia judaica

Documentário One of Us mostra faceta pouco conhecida da ortodoxia judaica

Por Marta Topel
Whatsapp

A última década foi prolífica em produções cinematográficas e seriados televisivos sobre a ortodoxia judaica, principalmente em Israel e nos Estados Unidos, contextos onde vivem a maioria dos judeus ortodoxos. Os temas apresentados nessas produções são dos mais variados e abrangem o cotidiano ortodoxo, o papel da mulher, a incorporação de novos membros provenientes do judaísmo secular, conhecidos em hebraico como baalei teshuvá, as problemáticas intrínsecas à difícil escolha entre permanecer ortodoxo ou assumir uma identidade LGBT, a situação de pobreza crescente das comunidades ortodoxas, entre outros.

Em 2017 o público brasileiro teve a possibilidade de assistir, no cinema em streaming, a duas produções que se debruçam sobre o universo ortodoxo norte-americano a partir de olhares diferentes. E não poderia ser de outro modo porque se trata de um filme de ficção, Menashe, e de um documentário, One of Us. Este último incursiona em uma problemática considerada tabu no universo dos judeus observantes: a deserção das comunidades ortodoxas ou, dito de outro modo, a escolha de alguns judeus ortodoxos por um modo de vida secular.

One of Us, dirigido por Heidi Ewing e Rachel Grady  (Jesus Camp e Detropia),  foi filmado ao longo de três anos, aproximando o espectador do drama de três jovens dissidentes da ortodoxia, Ari, Etty e Luzer, em sua tentativa de encontrar um lugar na sociedade moderna e secular norte-americana. O documentário nos apresenta várias cenas em que os protagonistas são humilhados e condenados ao ostracismo pelos familiares, amigos e pela comunidade chassídica da qual se desvincularam. Talvez o caso mais dramático seja o de Etty, a quem vemos lutar contra as lideranças da sua comunidade nas audiências do divórcio de um marido abusador e violento. A luta, intrinsecamente desigual pelo caráter patriarcal da Lei Judaica, deixa a Etty sem a guarda dos filhos pequenos, desencadeando uma tragédia para as crianças e para a jovem mãe. Porque a escolha de Etty não ofende só seu marido enquanto indivíduo, a escolha de Etty ofende a comunidade que pela sua ação sente-se ameaçada.

Como descrevi no livro A Ortodoxia judaica: dissidência religiosa no Israel contemporâneo (Annablume 2012), a deserção das fileiras da ortodoxia, seja em Israel ou nas comunidades diaspóricas, é um longo processo caracterizado pelo luto, a perda, a solidão, conflitos identitários, extrema pobreza e as dificuldades para aprender os códigos da sociedade moderna e secular. Isto último se expressa, tanto no que diz respeito aos problemas dos ex-ortodoxos para adquirirem as ferramentas necessárias para desempenhar um ofício para sobreviver, como para prestar os exames exigidos em instituições de ensino superior. Educados no gueto ortodoxo, em escolas que pouca atenção prestam às disciplinas seculares, os desertores da ortodoxia, principalmente aqueles de grupos radicais ou ultra-ortodoxos como as comunidades chassídicas mostradas em One of Us, não possuem os mínimos conhecimentos de geografia, matemática, história, contabilidade e física, o que, junto à falta do hábito de trabalhar característico da visão de mundo do judaísmo ortodoxo contemporâneo, complica severamente a adaptação dessas pessoas ao modo de vida pelo qual optaram.
    
A dissidência das comunidades ortodoxas é um fenômeno complexo e não cabe neste curto espaço analisa-lo.  Porém, considero importante salientar que ele é um dos indicadores mais importantes da crise pela que estão passando as comunidades ortodoxas, principalmente em Israel, mas também nas diásporas. Essa crise está diretamente relacionada à radicalização da ortodoxia nas últimas décadas e à instituição do que ficou conhecido como a “sociedade de estudiosos”, expressão que designa um fenômeno novo na história do judaísmo: a obrigação e/ou a pressão para os homens ortodoxos se dedicarem em tempo integral  ao estudo religioso nos kolelim (academias de estudos religiosos para homens adultos). Esse fenômeno, que fincou raízes profundas em Israel a partir da década de 1960, teve como resultado um empobrecimento crescente das famílias ortodoxas. Entretanto, a partir do ano 2000 o modelo da “sociedade de estudiosos” - ao que inevitavelmente se acrescentou um ideal de pobreza - começou a ser questionado de baixo para cima. Assim, são os homens mais jovens aqueles que se recusam a viver uma vida dedicada exclusivamente ao estudo dos textos sagrados do judaísmo, reivindicando a possibilidade de trabalhar para oferecer uma melhor qualidade de vida a suas famílias. Embora as lideranças ortodoxas, principalmente as do judaísmo lituano, continuem a exortar seus fiéis a viver uma vida dedicada ao estudo, fica clara a existência de uma grande brecha entre a visão de mundo dos Grandes Rabinos, cuja idade varia entre 95 e 103 anos, e os jovens ortodoxos. Em Israel, pesquisas recentes revelam a existência de um mercado negro de trabalho entre a população ortodoxa, caracterizado por trabalhos não registrados e/ou empreendimentos não oficializados.

Em uma época de fracasso das instâncias profanas como partidos políticos e sindicatos, e do desencantamento das ideologias de um modo geral, o retorno das identidades étnicas e étnico-religiosas e o poder de convocatória de muitas religiões é um fenômeno  sem discussão.  Escolher o judaísmo ortodoxo como forma de vida é um fenômeno significativamente difundido. Conhecidos como chozrim bi´teshuvá (os que retornam ao caminho ou à resposta), os indivíduos que abraçam a ortodoxia quando adultos veem nela um sistema de vida que dota de sentido a existência.  A espiritualidade dos lares ortodoxos, a solidariedade existente nas comunidades de judeus observantes, o carisma dos rabinos doutrinários, a possibilidade de serem “bons judeus” e praticar o único judaísmo autêntico e verdadeiro são apontados como as causas principais para a escolha da ortodoxia como forma de vida. 

One of Us veio para nos mostrar uma faceta da ortodoxia quase desconhecida para a maioria dos judeus, embora o fenômeno da deserção religiosa no judaísmo tenha crescido significativamente nos últimos anos: a crueldade de grupos fundamentalistas que não hesitam em colocar em prática todos os mecanismos possíveis para punir aqueles que se desvinculam  das suas fileiras. As histórias de Ari, Etty e Luzer não são menores no contexto das comunidades judaicas. É importante conhecer esse dado para melhor avaliar o judaísmo contemporâneo e as crises com as que ele se defronta.


Marta Topel é antropóloga, pesquisadora e docente, diretora do Centro de Estudos Judaicos (USP).

Inscreva-se