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Gaza é naquela direção

Por Leonel Caraciki
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Ando entre as gruas e contêineres. O sol aquece um pouco o dia frio. Do meu lado, anda o administrador civil da fronteira de Kerem Shalom. Ele me explica que o terminal é todo construído para que não se tenha contato com os dois lados. Um enorme portão de ferro aberto dá para um espaço cercado por enormes barreiras de concreto. Ele me diz que ali é onde as trocas são feitas. Em certas horas do dia, abre-se o portão do lado israelense, entram os caminhões que deixam os suprimentos, voltam e os portões se fecham. Pouco após, abrem-se os portões de Gaza, onde os estivadores recolhem o que foi entregue.

Ele me conta que a situação em Gaza é muito preocupante. “-Eu morei em Gaza, seguindo os passos do grande Menachem Begin. Sempre acreditei que temos que estar em toda a terra de Israel. Eu nunca quis sair de Gaza, tinha amigos lá. Os habitantes dali são incrivelmente inteligentes, é uma pena que o Hamas esteja acabando com a vida deles”.

Mais adiante no dia, sento próximo à fazenda de Gilad Sharon, filho de Ariel Sharon. Em 2005, o ex-general liderou a retirada de Gaza e seu filho, em 2016, parecia determinado a defender o legado do pai. “-Meu pai sabia lidar com os árabes. Quando ele liderou as tropas aqui em 1955, ele mostrou que não iamos assistir nosso sangue sendo derramado impunemente. Quando ele saiu de Gaza, mostrou que não temos interesse em governar milhares de árabes, não queremos nos tornar mais um entre os da região”. 

Não muito longe dali estava o memorial Hetz Shahor (Flecha Negra), comemorando uma operação militar em que a Brigada  Paraquedista do Exército de Israel retaliou contra um atentado na cidade de Rehovot, no qual um ciclista foi assassinado por indíviduos oriundos de Gaza. Na época, Gaza estava sob controle egípcio – desde os armistícios pós-Guerra de 1948. Poucos sabem, mas um governo palestino foi criado em 1948, proclamado em Gaza City, com um presidente e um primeiro-ministro. Declarava sua capital em Jerusalém e sua soberania sobre todo território do Mandato Britânico. Não tinha uma estrutura burocrática, orçamento ou um exército. No início de 1949, por causa dos combates da Guerra de Independência de Israel, o então Reino do Egito o relocou para o Cairo, onde perdeu relevância. Em 1952, se tornou um adendo na Liga Árabe, que colocou Gaza como protetorado do Egito. Seu ministro, Ahmed Hilmi Pasha, continuou a representar simbolicamente o governo palestino, sem real poder. 

Os egípcios sabiam que a fronteira de Gaza era porosa, assim como a da Cisjordânia. Os oficiais locais ignoravam e até mesmo incentivavam que habitantes de Gaza se infiltrassem em Israel, quase sempre para pequenos crimes: roubos de animais, furtos. Em meados dos anos 50, Cairo passou a treinar e armá-los, que conhecemos pelo termo fedayeen. Um destes fedayeen, abatido em Rehovot, carregava papéis da inteligência egípcia. Ariel Sharon coordenou o ataque contra uma base egípcia Gaza, resultando em trinta-e-oito soldados egípcios mortos e oito baixas do lado israelense. 

A operação não era novidade. Infiltrações ao território israelense eram quase sempre respondidas com retaliação. Gaza era terreno fértil: cheia de refugiados da Guerra de 1948, era um celeiro de possíveis terroristas. A situação contribuiu para a escalada da Guerra do Suez, em 1956, em que um dos objetivos era fazer cessar as infiltrações vindas de Gaza.

Hoje em dia, uma frágil cerca nos separa, juntamente com uma zona desmilitarizada. Toda sexta-feira nos últimos meses, protestos tentam romper a fronteira, com explosivos improvisados, armas brancas. Balões com explosivos incendiários queimaram boa parte do Sul. Um deles pousou em uma rua que fica a menos de dez minutos a pé de onde moro, onde vou todo mês em um dos meus restaurantes favoritos – Hodo HaKtanah, a Pequena Índia, em Beersheva. 

Estou encostado em um veículo militar esperando o oficial da IDF. Um rapaz pouco mais velho que eu, me leva para observar de longe a fronteira com Gaza. Pergunto das colunas de fumaça, ele me diz que devido à falta de combustível, se queima o que for possível ali. Ele diz que o objetivo de seus homens é garantir a tranquilidade na fronteira. Diz que o Hamas também tem suas prioridades de manter seu poder, então também não está interessado em escalar o conflito o tempo todo. Isto não quer dizer que não tem interesse em atacar Israel. O oficial me explica que suas funções incluem incursões na fronteira para reconhecimento: “-Eles tem até foto minha, sabem quem eu sou, tanto quanto eu sei quem eles são”. Me dá o binóculo e aponta para o outro lado da Faixa. É a fronteira com o Egito. Me diz que o solo escuro é resultado da água do mar bombeada pelos egípcios para selar os túneis de contrabando de produtos e armas. Eventualmente a água vai matar o solo fértil e destruir o lençol freático.

Eu moro no sul de Israel. Já estive trancado em casa quando a polícia aconselhou evitar locais públicos: um terrorista estava a solta na cidade e um atentado era iminente. O homem foi capturado no estacionamento de um shopping o qual frequento com alguma assiduidade. Volta e meia, já corri – mesmo ao escovar os dentes, no meio do banho - para o corredor do prédio ao ouvir a sirene antimísseis, pois não temos em casa um abrigo anti-bombas individual. Em uma delas, ouvi somente o final da sirene e senti o impacto da explosão na janela da sala. A única coisa que você quer ler nestes momentos são as letras “merkah mugan” – abrigo anti-bombas. Em novembro de 2018, um dia antes do meu aniversário, leio na televisão que devido à escalada de hostilidades o prefeito da minha cidade ordenou a abertura dos abrigos públicos. Ligo para minha namorada e saímos para o centro do país somente com duas mochilas e poucas mudas de roupa. Ela já se cansou de ouvir sirenes. Estudou em Beersheva durante as três últimas operações em Gaza. Diz que já não consegue viver assim. Ao ouvirmos sobre o cessar-fogo no dia seguinte, ri e diz que é a trégua para o Hamas se rearmar para próxima rodada. 

Ninguém esperava que sair de Gaza iria resolver o conflito. Ariel Sharon, Shimon Peres e Ehud Olmert não tiveram problema em dizer que a retirada era basicamente para evitar a incorporação de 1.5 milhão de árabes e mudar o peso demográfico de Israel – seguindo a lógica dos Acordos de Oslo. Os oito mil israelenses de Gaza seriam retirados, as suas residências destruídas mediante compensação em Agosto de 2005. Pouco antes, diversos habitantes haviam se retirado voluntariamente para evitar conflitos.

O guia no Museu de Gush Katif, em Jerusalém, me mostra as peças da sinagoga de Neve Dekalim. O prédio do museu nada mais é do que algumas salas com objetos dos assentamentos e diversos vídeos. Ele me conta que deixaram tudo para os palestinos, inclusive estufas para plantações, e que eles destruíram tudo pois não queriam usar nada oriundo dos judeus. Não quis corrigir o homem, pois seria inútil. Mais da metade das estufas foi desmontada na evacuação, as restantes foram compradas por um filantropo internacional. A polícia da Autoridade Palestina se mostrou ineficiente contra saqueadores, porém já se duvidava de que as dez construções restantes seriam viáveis como negócio. 

Ele me diz que sair de Gaza somente piorou a situação do Sul. O exército antes podia se guarnecer nos assentamentos para agir contra eventuais focos de terrorismo. Neste ponto, ele estava equivocado. Era óbvio que o lançamento de foguetes se tornou exponencialmente pior após a retirada. Gaza foi completamente tomada pelo Hamas, após a Guerra Hamas-Fatah de 2007, quando os grupos entraram em confronto pela hegemonia política da Autoridade Nacional Palestina. Até hoje os efeitos da disputa política são sentidos. O setor sionista-religioso da sociedade israelense até hoje evoca o trauma de Gaza, de judeus expulsando judeus de suas casas. 

O exército israelense sabe que não existe uma solução óbvia. Operações por terra não seriam simples: a densidade populacional do território e uma guerra assimétrica seriam potenciais centenas de baixas no Exército de Israel. Não existe mais o “campo de batalha”, seria mais como Stalingrado. A opinião pública israelense não é complacente com soldados mortos. Em um país pequeno, são os filhos de alguém ou seus amigos. Em democracias, a mídia, a liberdade de expressão e associação tendem a frear impetos excessivos de governos. Em Israel, adicione a isto o exército, que frequentemente é o pólo moderador das operações militares. Enquanto Naftali Bennett e setores da direita pedem operações militares, o Estado-Maior pede calma, operações pontuais e não-deflagração de conflitos que possam fugir do controle. Sabem o que está em jogo.

Estamos melhor sem estarmos em Gaza? Provavelmente, mas com novos problemas. O bloqueio naval, aéreo e terrestre ainda é melhor do que caminhar inexoravelmente para a anexação completa de Gaza. Os sonhos da direita de dominar os territórios sem dominar milhões de palestinos não são factíveis. A ideia de que eles não terão tempo para falar de nacionalismo com PIB per capita de quarenta mil dólares se baseia em crer que eles não tem identidade nacional. A esquerda – principalmente a fora de Israel – que acredita que sair dos territórios é uma solução imediata para a paz, também pouco entende o medo muito real e razoável dos israelenses. Os traumas da Segunda Intifada, em que uma geração inteira se viu sitiada por explosões de atentados suicidas em shoppings, boates ainda pesam. Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo e um homem da esquerda israelense, viu a retirada unilateral de Gaza como recompensa para o terror.

Sua lógica era simples: a falta de negociação nada mais era do que uma maneira de manter o status quo, interromper reais conversas com a Autoridade Palestina e aumentar a presença em Judeia e Samaria/Cisjordânia. Não estava errado, é exatamente o cenário de hoje em dia. Os 48 km que me separam de Gaza dão mais ou menos um minuto para o míssil cair ao redor de minha casa.

O ministro de Cooperação Regional de Israel, Tzachi Hanegbi, disse em entrevista que os mais de quatrocentos mísseis que caíram em Ashkelon, Sderot e comunidades do Sul eram algo menor. Que se caíssem em Tel Aviv, é algo diferente. Minha namorada esbraveja: “-Nós pagamos impostos, enviamos nossos filhos para o Exército tanto quanto quem mora no Gush Dan e sou obrigada a ouvir isso. Isto nada mais é do que sintomático do que está errado na nossa sociedade, estão matando a solidariedade tradicional do sionismo”. Poucos dias antes, conversavamos sobre uma visita que ela fez à um kibbutz ainda cooperativo no Sul. Vivem somente de agricultura e um balão seria o suficiente para acabar com a coheita. Ela me conta que se emocionou com o discurso dos membros do kibbutz, que estão ali para “lehityashev e livnot” – se assentar e construir – na Terra de Israel. Olha para baixo e diz: “-É uma pena que tenham abandonado o Sul”.

É difícil criar uma narrativa clara sobre Gaza. Eu, historiador, não consigo. Políticos também não conseguem por um motivo simples: admitir a falta de solução não traz votos. O regime é a manutenção de forças em um equilíbrio precário, até um Grad, um Qassam, um morteiro, acertarem alguém. A resposta israelense, contra alvos do Hamas em Gaza, um lugar com 1.5 milhão de habitantes que vivem em 362 km², vai invariavelmente atingir civis. As fotos rodam jornais internacionais, as armas eventualmente silenciam, os líderes do Hamas continuam no Qatar e a solução não muda. Israel não vai reconhecer um Estado Palestino com o Hamas em Gaza, o Hamas não vai reconhecer Israel. A violência é uma forma de negociação – cruel, sem dúvidas: violência leva a uma entrada maior de alimentos e provisões, leva a transferência de fundos do Qatar, leva à sobrevivência política em meio à uma população cativa e cada vez mais miserável. O Fatah não iria assumir Gaza se Israel for o responsável pela desmobilização do Hamas, que por sua vez, não aparenta querer baixar as armas. O Egito preferiu se retrair de um papel ativo para cuidar dos seus problemas internos e do terrorismo no deserto do Sinai.

Qualquer um que te dê soluções simples está omitindo uma ou mais partes desta equação. 

Quando aluguei o atual apartamento, o proprietário me explica que o ideal é ficar longe da parede próxima da janela da sala em caso de sirene. “Gaza é naquela direção”, disse Boaz, enquanto eu terminava de reler o contrato de locação.



Leonel Caraciki é doutorando no Centro de Estudos de Israel e Sionismo na Universidade Ben-Gurion do Negev. 

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