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Entendendo a Partilha da Palestina além do Voto

Por Leonel Caraciki
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“Kaf-Tet b’November”. É assim que a data da Partilha da Palestina (Resolução 181) ficou imortalizada no hebraico e no imaginário coletivo israelense. O Kaf Tet coroou os esforços diplomáticos de meio século do movimento sionista, ao ratificar a emergência de dois Estados no território da Palestina – um árabe e um judaico. Não foi a primeira vez que se propôs uma partilha. Em 1937, após a eclosão da Revolta Árabe (1936-1939), as autoridades do Mandato Britânico se deram conta que a violência generalizada era fruto de antagonismos nacionais irreconciliáveis entre judeus e árabes. 

O trabalho da Comissão Real para a Palestina, ou a Comissão Peel, foi de investigar as causas da violência generalizada. A solução encontrada foi a partilha do território com trocas populacionais, como foi feito entre gregos e turcos na década de 1920. A proposta dividiu as lideranças sionistas e foi rejeitada por toda a liderança árabe, que em resposta intensificou os protestos violentos contra os britânicos e os judeus. Mas qual é a importância disso para entender o 29 de Novembro de 1947? 

A proposta da Comissão Peel deixa claro de que a Yishuv – a comunidade judaica organizada na Palestina – possuia condições para ter um Estado funcional já nos anos 1930. Ao ler diversas impressões sobre a importância da Partilha, para muitos, aparentemente “criou-se” um Estado no dia da Partilha. Mas, ao contrário disso, desde o final do século XIX, instituições vitais para a existência de um país foram gradativamente sendo estabelecidas. Um sistema moderno de saúde já funcionava nos anos 1920, uma rede de escolas e ensino superior operava livremente e instituições políticas, que claramente tinham como objetivo sustentar um Estado independente, acumulavam quase duas décadas de experimento democrático.

O que estava em jogo em 29 de Novembro de 1947 não era a “criação de Israel”. Com 600.000 habitantes, instituições nacionais e uma força paramilitar que já conseguia garantir a segurança de sua população, com ou sem o voto da partilha, naturalmente o Estado de Israel iria surgir, talvez um pouco mais tarde. O que estava em jogo era entrar na comunidade internacional de maneira clara e aberta. Desde 1897, a diplomacia do movimento sionista procurou ser parte da sociedade das nações de maneira clara.

A busca incessante por declarações públicas da legitimidade do Lar Nacional Judaico foi fundamental por deixar claro que estava em conformidade com o direito internacional. O processo de votação na Assembleia Geral foi acompanhado por intensas negociações nos bastidores, pois alguns países somente se decidiram nos últimos momentos. Havia porém um simbolismo de um voto da instituição que prometia administrar a paz mundial após a Segunda Guerra Mundial. 

O voto da Partilha era o reconhecimento do sofrimento histórico de séculos, durante os quais os judeus foram perseguidos, humilhados e mortos em diversos países onde passaram. Dos guetos e das juderias, em meio século o projeto sionista saiu de uma aparente ideia louca de um jornalista de classe média para colocar seus líderes sentados como iguais na sociedade internacional. Uma visão que sensibilizou imensamente o grupo de especialistas da ONU que visitou o território da Palestina antes do voto foi o desembarque do navio Êxodo. Os sobreviventes do Holocausto que estavam a bordo do navio foram desembarcados em Haifa sob golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogênio da polícia britânica. Pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, Londres simplesmente cancelou as promessas de um Lar Nacional Judaico. De acordo com os cálculos políticos, seria mais benéfico assegurar uma parceria com os árabes – mais numerosos, detentores de petróleo e um vasto mercado consumidor – do que com o pequeno número de judeus que estava na Palestina. A imigração de judeus foi drasticamente reduzida e eventualmente proibida pelas autoridades.

O voto da ONU pretendia mais uma vez, tentar organizar uma situação sem solução em vista. As tropas britânicas na Palestina pararam de agir para proteger a vida e a propriedade de civis mesmo antes do voto da partilha. Nas seis semanas seguintes ao voto, 1069 árabes e 769 judeus iriam morrer. As discussões na Assembleia Geral já anunciavam que o mundo estava certo de que a Partilha resultaria em violência generalizada. 

 As dores para o nascimento do Estado já estavam em curso. Enquanto o mundo judaico festejava o renascimento da politéia judaica, David Ben-Gurion e Menachem Begin não acreditavam que era possível dançar para comemorar o evento. As ruas estavam repletas de indivíduos dançando, porém alguns sabiam que a hora era crítica pois o teste real começaria não com o bater do martelo de Oswaldo Aranha em Nova Iorque, mas com a capacidade de sobrevivência da nova politéia – contando somente consigo mesmo.

Os maiores expoentes da esquerda e da direita israelense sabiam que o voto era uma etapa na aquisição de soberania, mas que o teste real seria nas ruas e trincheiras. Begin declarou que os árabes reagiram com violência contra a Comissão Peel e o voto da ONU seria uma repetição daquele momento. Ben Gurion disse: “-Eu não podia dançar. Sabia que estavamos encarando uma guerra e que muitos dos nossos jovens seriam perdidos”. Ben-Gurion sequer anotou algo especial em seu diário no dia. Eles estavam certos. No dia seguinte, uma ambulância que seguia para o hospiral Hadassah foi fuzilada. Ninguém se feriu. Em outro ataque, um ônibus de passageiros foi atacado com tiros e granadas. Cinco passageiros morreram, sendo um deles uma noiva no dia de seu casamento.

O Kaf-Tet pode parecer paradoxal. Celebrado como “a criação de Israel”, ele acaba por desvirtuar nossa atenção dos acontecimentos na Palestina. O futuro presidente de Israel, Chaim Weizmann, disse que “- Não se dá um Estado para um povo em uma bandeja de prata”. O voto da ONU reconheceu a legitimidade do Estado de maneira pública, expondo o caso para a comunidade internacional. Porém quem garantiu a sobrevivência dos 600.000 habitantes judeus do futuro Estado de Israel não foi a ONU ou a comunidade internacional. A rejeição da Partilha foi um ato unilateral das lideranças árabes cujo resultado podemos ver até os dias de hoje. O que garantiu o mínimo dos seus resultados foram os esforços incessantes – em sua grande maioria por parte de indivíduos cujos nomes não saberemos - para transformar a ideia de um Estado em algo sólido e real.



Leonel Caraciki é doutorando no Centro de Estudos de Israel e Sionismo na Universidade Ben-Gurion do Negev. 

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