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Com todos os seus descompassos, Israel acertou em cheio na sua resposta ao COVID-19

Por Leonel Caraciki
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Este é um texto de opinião. Minha perspectiva é de alguém que vive em Israel, em uma classe média confortável, que transita em meios acadêmicos e moderadamente religiosos. Aqui não tenho a pretensão de ecoar opiniões diferentes das minhas.

Não votei em Netanyahu nos meus anos de cidadão israelense. Na maioria dos seus discursos, prefiro desligar a televisão. Vibrei quando acreditei que Benny Gantz poderia formar um governo. Porém, na resposta ao COVID-19, Netanyahu acertou e Israel se junta ao grupo seleto de países que está se reabrindo após a pandemia.

Logo no início da crise, já se sabia que a chegada do COVID-19 era uma questão de “quando”. O primeiro caso, no dia 21 de Fevereiro, havia sido importado com uma passageira do cruzeiro Diamond Princess, no Japão. Logo os casos começaram a aparecer dia após dia: uma loja de brinquedos em Or Yehuda foi a fonte de infecção de três pessoas que logo se transformaram em mil e duzentos alunos em isolamento.

Vi Netanyahu na televisão mencionando a possibilidade de milhares de mortos. A tensão era palpável. Somos um país pequeno, apenas nove milhões e duzentos mil habitantes. Números pesam imensamente em um país onde, como escreveu Efraim Kishon, você chama o ministro da Economia de “Moshe”. O medo era palpável.

A decisão de revogar a entrada de cidadãos chineses foi criticada como insensível, com o embaixador chinês Dai Yuming comparando aos “dias mais negros da história humana” – uma comparação velada ao veto da entrada de refugiados judeus em diversos países durante o Holocausto. As notícias se avolumavam. Antes os chineses, depois se somaram cidadãos da Coreia do Sul. Nossas fronteiras com países vizinhos já são fechadas, o que seria se fechassem o aeroporto Ben-Gurion?

Se uma atividade é popular em Israel, é reclamar dos serviços públicos. As redes de televisão previam o colapso do sistema de saúde. Um dia, indo de trem para um encontro de trabalho em Tel Aviv, ouvi um médico que sentava atrás de mim no trem que o hospital Soroka, o maior do sul de Israel, era mais esburacado que um queijo suíço e não iria suportar o influxo de pacientes.

A população israelense entende que situações problemáticas necessitam de regras. Quando a situação em Gaza se deteriora e mísseis chovem nas cidades do sul, o comandante da Defesa Interna (pikud ha-oref) aparece nos jornais para explicar as regras. Com o COVID-19, vimos Netanyahu e o Diretor Geral do Ministério da Saúde, Moshe Bar Siman Tov, dia após dia na televisão. As regras endureciam dia após dia – aglomerações cada vez menores, shoppings fechados, ônibus com capacidade reduzida. Um dia, subo no ônibus e vejo que as primeiras fileiras estão proibidas aos passageiros. O dono da mercearia me conta que tem medo do que está por vir.

Cada morte foi noticiada na televisão: um sobrevivente do Holocausto, um morador de Jerusalém. O país se fechava cada vez mais, chegando ao ápice em Pessach. O seder, o jantar tradicional de Pessach, celebrado em família por religiosos e seculares em todo o país, foi celebrado em isolamento. Muitos, inclusive eu mesmo, nos decepcionamos ao ver que diversos políticos burlaram as regras para celebrar com sua família, enquanto a população já não via seus parentes há um ou dois meses. Porém, as regras claras, publicadas na internet, na televisão, os boletins diários – tudo trouxe uma sensação de segurança.

As mensagens não eram contraditórias. As instruções do ministério da Saúde foram claras. O ego dos ministros ou do Primeiro-Ministro não foi algo que passou na frente da ciência. Disputas internas entre ministérios não transpareceram – hotéis foram utilizados como quarentena, o Exército levou alimentos para idosos e a polícia multou quem descumpria as regras. A questão dos haredim, ultraortodoxos que aparentemente iriam ignorar as regras, foi resolvida de maneira elegante. Entendendo que a autoridade do governo não iria se sobrepor às lideranças rabínicas, respondeu-se de maneira republicana. As fronteiras continuaram fechadas – com um ou dois vôos por dia. Quem chegou ao país, deveria ficar em casa por quatorze dias em isolamento.

Incidentes e erros aconteceram, claro. Israel é um país como outros, com burocracia que volta e meia pode ser muito ineficiente. Falta de testes foi um problema, denúncias de médicos que não tinham material básico de proteção abundaram. Porém, foi resolvido. O entendimento de que a pandemia é questão coletiva não faltou. Aqui em Be’er Sheva, no sul, máscaras, termômetros na entrada de lojas se tornaram algo comum.

Vimos o Dia em Memória do Holocausto de nossos sofás, o Dia em Memória dos Mortos em Guerras e Terrorismo também e cantamos o hino de nossas janelas na cerimônia do dia da Independência. Neste dia, o número de recuperados ultrapassou o número de doentes. O país entrou no caminho para a normalidade.

Obviamente, nem tudo são flores. Israel é um país ansioso. A sensação geral é de que a abertura da economia está sendo rápida demais. Não culpo a população. O pacote de ajuda foi baixo, com pequenos comerciantes sofrendo imensamente. 25.6% da mão-de-obra está desempregada, recebendo auxílio-desemprego. O próprio sistema de auxílio chegou a parar com o influxo de mais de um milhão de desempregados em uma semana. Reclamações de que trabalhadores autônomos foram excluídos não foram poucas. As prefeituras não aceitaram reabrir suas escolas por medo de uma nova onda de infecções. Na política, o sistema democrático lidou com estresses imensos. Porém, ninguém pediu o fechamento do parlamento. Protestos em Tel Aviv aderiram ao distanciamento social – democraticamente.

Ontem, ao pegar um ônibus em Tel Aviv, senti um certo receio. Mesmo vazia, a estação de ônibus era palco dos comuns acotovelamentos na entrada dos veículos. Como existe um limite de vinte passageiros, as esperas são longas e a paciência é curtíssima. Shoppings reabrirão no dia sete de Maio. É possível? Volta e meia se pensa que entramos em uma vaidade desmedida por causa de nossos sucessos. Falam de câmeras termais, aplicativos, listas de entrada. Para quem vive em Israel e sabe do dia-a-dia de fato, pode soar como propaganda da start-up nation. Formou-se uma coalizão com objetivo emergencial de guiar o país em crise. Com trinta e seis ministérios — que para muitos parece afrontoso – quem vai pagar a conta, quando o governo não pode ajudar seus cidadãos mais vulneráveis?

Porém, nossos acertos foram muito maiores do que nossos erros. Os números são melhores dia após dia. Foram dois meses de resiliência, de incerteza – porém de vitórias.

O futuro é um tanto quanto incerto. Bibi está celebrando sua vitória contra o COVID. Hoje anunciaram que livrarias e parques nacionais irão reabrir. De certa forma, vencemos todos. Resta saber se iremos utilizar a experiência de maneira sábia.

Am Yisrael, kol hakavod. Passamos este ano separados, para passarmos os próximos juntos.


Leonel Caraciki é Diretor de Fundraising na Organização Rabínica Tzohar e Doutorando no Centro de Israel e Sionismo da Universidade Ben-Gurion do Negev. É pesquisador no grupo "Israel e o Mundo Judaico".

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