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Biden venceu as eleições. O que isto significa para os Judeus americanos e para Israel?

Por Leonel Caraciki
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Para as comunidades judaicas dos Estados Unidos, um voto esperado. Uma antiga frase das ciências sociais americanas diz que as comunidades judaicas dos EUA “ganham como cristãos episcopais e votam como portorriquenhos”. Basicamente, quer dizer que os judeus americanos de maneira desproporcional votam no Partido Democrata, ainda que sejam uma das minorias mais bem-sucedidas em termos materiais. De acordo com o American Jewish Committee, uma das maiores organizações judaicas dos EUA, algo em torno de 75% dos judeus americanos votaram em Biden. 

Mesmo sendo apenas 2% do eleitorado americano, as comunidades judaicas possuem um forte peso no sistema eleitoral pela sua capacidade filantrópica e engajamento político. Em um país onde no geral menos de 50% do eleitorado comparece às urnas, Judeus americanos tem uma taxa de votantes de até 85%. 

A dicotomia entre “interesses israelenses” e “interesses judaico-americanos” é uma chave à qual devemos prestar atenção. Judeus americanos são a maior população judaica fora de Israel, profundamente ligados à vida política dos EUA. Os Estados Unidos ofereceram uma sociedade sem desafios materiais ou legais à vida comunitária americana, a possibilidade de experimentar com diferentes identidades judaicas e definições religiosas e uma vida virtualmente livre do antissemitismo europeu. A isto chamamos de “liberalismo americano”.

A tradição liberal americana é parte fundamental da identidade judaica americana. O termo liberalismo nos EUA significa algo bem diferente do que significa na tradição política do resto do mundo. Se no Brasil e Europa a ideia remete à livre-mercado, nos EUA estamos falando de um sistema de liberdades civis e justiça social que abrange tanto esquerda quanto direita. Este sistema político pede a separação de Estado e religião, proteção à minorias – incluindo um Estado de bem-Estar social e legislação que impede discriminação de raça e religião. Gerações e gerações de imigrantes judeus nos EUA se beneficiaram destas ideias. Certamente, não foi um caminho simples. As primeiras gerações nos Estados Unidos ainda foram afetadas por discriminação social, em que certos hotéis, universidades e clubes privados se recusavam a aceitar judeus. Porém, o antissemitismo entranhado na estrutura do Estado nunca chegou aos EUA. Universidades que estipulavam um limite não-formal para a entrada de minorias abandonaram tais medidas discriminatórias nos anos 1950. A vida judaica nos EUA se tornou parte da vida americana, social e culturalmente.

O fato de frequentar uma sinagoga não era mais uma controvérsia. Inclusive, se o indivíduo quisesse deixar completamente de se conectar com o mundo judaico, isto também era possível. O robusto arcabouço econômico do New Deal permitiu que muitos ascendessem socialmente. A geração dos anos 1960, livre das amarras sociais, aprofundou sua desconfiança em políticos cuja plataforma é de restrição de liberdades. 

Trump e o Partido Republicano representaram o oposto do liberalismo para o Judaísmo Americano. Ao capitanear ideias tradicionais dos republicanos, como o repúdio ao aborto, apelos para uma recristianização da sociedade americana e outras, a presidência de Donald Trump se mostrou como o anti-liberalismo. A ideia de “viva e deixe viver” e de expansão de direitos para todos os setores da sociedade, na visão de mais de ¾ da população judaica, estavam ameaçadas. Não somente isto, ao se aproximar de setores religiosos evangélicos e alguns da ortodoxia judaica (que é uma minoria de menos de 10% na demografia judaica americana), pressentiu-se uma quebra em um pilar fundamental da vida judaica americana: a liberdade de culto e a liberdade de não cultuar. Para permitir a vida religiosa, o governo deveria se situar o mais longe possível da religião. Tal princípio foi abalado e o resultado é visível no voto dos judeus americanos.

Quando Trump repetidamente citou Israel como “o país de vocês”, isto criou uma desagradável sensação nos judeus americanos. Apesar de se descrevem como americanos e judeus (ou judeus e americanos, dependendo de quem responde) dizer que Israel e não os Estados Unidos é o país dos judeus americanos causou um choque. O medo de acusações de dupla lealdade – a ideia de que judeus se importam mais com si mesmo ou com Israel do que com o país onde moram – reverberou nas comunidades de forma clara. Isto foi visto por muitos como um desafio: judeus americanos, que graças ao liberalismo americano, foram finalmente considerados cidadãos como todos os outros, foram pintados como leais à outra entidade política que não a sociedade que os acolheu. 

Judeus Americanos se importam com Israel – mas vivem nos EUA. Apesar de importante para 95% dos judeus americanos, a sua vida é nos Estados Unidos e suas prioridades são americanas. Biden oferece uma possibilidade de política tradicionalmente conhecida pelos judeus americanos – um homem de centro, dentro do consenso político americano. As ondas de supremacismo branco e racismo na sociedade americana são mais importantes para a vasta maioria dos judeus do que a política externa em relação à Israel. Uma política externa 100% pró-Israel é válida e bem-vinda, porém, não é mais importante para o voto judaico do que outras medidas que impactam diretamente a vida dos cidadãos americanos. Além disso, o apoio à Israel passa por percepções de democracia e liberdade de religião que não necessariamente se alinham entre judeus americanos e o Estado Judeu.

Biden é um velho conhecido em relação à Israel. Um membro veterano do mundo da política externa americana, Biden declarou durante sua visita em um evento do Dia da Independência de Israel – em 2015 -  que “Israel é absolutamente essencial para a segurança dos judeus ao redor do mundo”. Em 2020, prometeu que não iria usar o auxílio militar americano como moeda de barganha para negociar com Israel. Os Estados Unidos são o principal parceiro de tecnologia militar para Israel, oferecendo um pacote que garante a superioridade militar do país na região. Porém, Biden é um crítico de políticas israelenses como a expansão de construção nos Territórios e a falta de vontade em negociar com a Autoridade Palestina. 

Provavelmente veremos a mudança de algumas diretrizes da política externa em relação à Israel. A mudança mais clara que veremos será uma volta da Autoridade Palestina às conversas com Washington. Biden prometeu reabrir o consulado americano em Jerusalém Oriental e a Missão Palestina nos EUA. A Embaixada em Jerusalém deve continuar como está, ainda que a Autoridade Palestina faça pressão para que a medida seja revertida. Em campanha, Biden disse que apesar de sua oposição à mudança, não deve relocar a embaixada de volta para Tel Aviv.

Biden tradicionalmente prefere uma solução de dois Estados, então o “Plano do Século” deve voltar para a gaveta do Departamento de Estado. A posição de Dois Estados é diametralmente oposta ao que Jerusalém adotou como visão para o conflito. Quando Biden era o vice-presidente de Barack Obama, Netanyahu não teve problemas de anunciar a expansão da construção de assentamentos em territórios da Cisjordânia em meio a uma visita oficial de Biden a Israel. Isto criou um embaraço claro que certamente vai ser lembrado de maneira negativa.

Acordos de Abraão? Devem continuar. Os “Acordos de Abrãao”  são os acordos com diversos países do mundo árabe para normalizar relações diplomáticas com Israel. Vimos recentemente os Emirados Árabes, Bahrein e Sudão como signatários. São acordos simples, de efetividade clara. No caso dos Emirados Árabes, as trocas comerciais mostram um claro sucesso. Provavelmente não veremos de novo algo como a troca da retirada do Sudão da lista de terrorismo internacional, mas não existe motivo convincente para que a administração abandone tais planos. 

Irã? Provavelmente uma questão a ser resolvida. Biden não deve repetir a eliminação estratégica de alvos inimigos como Trump fez com o General Suleimani. O mais provável é que siga uma política de contenção de Teerã com um novo acordo nuclear em que a capacidade de obtenção de material nuclear pelo regime dos aiatolás seja limitada. Isto é frontalmente oposto ao que Netanyahu vê como solução e provavelmente será foco de disputa entre os governos. A sintonia maior entre Israel e os países do Golfo provavelmente irá pesar nas considerações da política externa americana.

Visões diferentes com Israel. Antes da guerra de Yom Kipur (1973) Biden se encontrou com a então Primeira-Ministra Golda Meir e sugeriu que Israel se retirasse das Colinas de Golã, no norte do país, como maneira de mostrar abertura para a paz. A então chefe de Estado de Israel disse que isto não era possível e que Biden não entendia o caráter volátil da região. Isto provavelmente irá se repetir entre Washington D.C e Jerusalém em 2021. 

Com as comunidades judaicas americanas – menos problemas. Biden provavelmente vai servir como uma esperança para os judeus americanos de que o Partido Democrata ainda se encontra firme em seus princípios liberais e não está na direção de Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar, cujas posições são hostis à Israel – a segunda frequentemente com declarações tidas como antissemitas. Para aqueles que veem todo e qualquer compromisso com a solução de dois Estados como apoio ao terrorismo, certamente a presidência de Biden será extremamente divisiva.


Leonel Caraciki é Diretor de Fundraising na Organização Rabínica Tzohar e Doutorando no Centro de Israel e Sionismo da Universidade Ben-Gurion do Negev. É pesquisador no grupo "Israel e o Mundo Judaico".

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