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Aos 70 anos de sua independência, ler Israel do micro para o macro é fundamental

Por Leonel Caraciki
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I.  
 
O escrever da história está intimamente ligado à criação de uma identidade nacional. A maneira pela qual o Estado anuncia sua história, passando pelos livros escolares, a fixação de datas comemorativas e nomeação de lugares públicos são evidências materiais deste fenômeno. Em Israel, onde ruas e praças levam os nomes de sábios judeus da Babilônia, reis judeus da Antiguidade e batalhas de guerras recentes, isto é claramente visível. O Estado de Israel seria a reconstituição política da terra dos judeus após dois mil anos de dispersão forçada. O ano de 1948 representou um milagre moderno: ao se defender contra um ataque de sete países após uma guerra intracomunitária com os árabes do Mandato Britânico na Palestina, Israel emergiu triufante. Três anos nos após a abertura dos portões de Auschwitz, a soberania judaica contava outra história sobre os judeus. Desde o fim do século XIX, pioneiros criaram uma sociedade a partir do nada, reviveram o hebraico como língua corrente após dois mil anos e formaram uma pujante cultura nacional.

Israel era nada menos do que o kibbutz galuyot – a reunião dos dispersos e exilados – sob a bandeira azul e branca. Um porto seguro para os judeus, vigilante contra novas agressões. Durante mais de cinquenta anos, pioneiros desbravaram pântanos e desertos para criar comunidades no meio do nada. Muitos saíram de condições de opressão na Europa para criar comunidades socialistas, cidades, escolas, hospitais. Israel entrou em sua independência com uma infra-estrutura erguida à suor e vontade de uma geração inteira. Os novos imigrantes de todos os lados trariam uma mescla e autenticidade para a nova sociedade, igualitária e unida atráves de solidariedade nacional. O tempo era de austeridade, mas o governo fazia de tudo para administrar os recursos para todos. Erros aconteciam, é claro, mas nenhum país havia recebido tantos imigrantes em tão pouco tempo, nenhum país havia trazido imigrantes, criado uma rede de bem-estar social e defendido seu território contra inimigos sem fim ao mesmo tempo.

A criação de uma sociedade utópica era a meta final. Israel era uma experiência de um país que juntava tradição e modernidade, tirando o judaísmo dos guetos da Europa para criar o novo judeu. Este era forte, bronzeado, não mais o judeu das academias rabínicas ou o intelectual desenraízado que o antissemita construiu carreira ao professar seu ódio por ele. O israelense era o novo judeu de todos os cantos em seu lugar natural, a Terra de Israel. As guerras de Israel eram guerras de defesa, nunca ofensivas. Sua sociedade se pautava pelo consenso mediado por um saudável patriotismo e sentimento de igualdade.

A primeira acusação de que esta narrativa era um mito veio cedo.

II.

Em 1959, no subúrbio da cidade de Haifa, Yaakov Elkarif, um imigrante oriundo do Marrocos foi detido pela polícia. Rumores diziam que ele foi violentamente espancado e morto. A polícia desmentiu a morte do de Elkarif, mas declarou que ele era um homem de moral duvidosa, causando disturbios em público. Para muitos habitantes da periferia, isto foi a gota d’água. Em sua maioria eram imigrantes de países árabes e do norte da África, chamados de mizrahim, orientais.. Estes viam a história de integração como uma mentira. Ao chegarem em Israel, se viram jogados em campos de trânsito, tiveram seus cabelos raspados e foram fumigados com DDT. Eram descritos como “arsim”, plural de ars, uma gíria para denotar pessoas de baixo nível cultural e social. Seus sobrenomes os impediam de ingressar em qualquer cargo mais alto no governo e no partido dominante, o Mapai (Partido dos Trabalhadores da Terra de Israel), na fila da distribuição de casas somente conseguiam as piores possíveis e longe de Tel Aviv e Jerusalém.

O ressentimento contra o establishment resultou em dias de protestos violentos, com dezenas de presos e feridos. Os alvos preferenciais eram as sedes do Mapai e da Histadrut, o sindicato de trabalhadores. Eram para a multidão a face visível da discriminação que sofriam. A narrativa de que Israel tinha como meta uma utopia era falsa, criada para acobertar os interesses de uma elite do partido que somente representava a parte branca e europeia do país. Não é à toa que em 1977, se elege Menachem Begin, oponente histórico da esquerda.

Gvirotai veRabotai - Mahapakh! – Senhoras e Senhores – Revolução!, foi como o âncora Haim Yavin anunciou a vitória da oposição. A “Revolução Mizrahi”, como ficou conhecida, queria trazer à tona o que muitos percebiam como a verdadeira alma do país. Os governos de esquerda eram, nesta perspectiva, hostis à religião. Cabia então trazer mais religião para o espaço público, usar kipá na rua. As medidas centralizadoras da economia promovidas pelo Estado desfavoreciam o setor mizrahi, então a solução era a introdução de medidas liberais na economia. Para muitos, havia um desequilíbrio entre os dois pólos de Israel: judaísmo e democracia. Israel deveria ser mais autenticamente judaico, no sentido de abraçar as tradições e a religião. O espaço público israelense passou a ver famosos que deixaram uma vida secular para se tornarem ultra-ortodoxos, passou a conviver com mais e mais rapazes estudando nas yeshivot – as instituições educacionais religiosas – em tempo integral.

Muitos destes rapazes viam o sionismo que criou o Estado como incompleto. Ao ignorar a religião, criava uma sociedade desconectada de suas raízes na Torá. Para eles, o pioneirismo de conquistar e construir Israel deveria ser levado para os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. A Cisjordânia era o lugar das cidades bíblicas, o berço dos Reinos de Israel e somente a união dos pioneirismo sionista com a religião poderiam criar um movimento com valores verdadeiramente sólidos. O ressurgimento do Estado seria, nesta perspectiva um milagre divino e seu território, sagrado. Manter sua integridade seria tarefa primordial de qualquer governo.

O Primeiro-Ministro Menachem Begin não era religioso, mas não se envergonhava de recitar uma benção religiosa para comemorar sua vitória nas urnas. As comunidades da periferia finalmente receberiam atenção e recursos. Begin marcaria a história do país por assinar o Acordo de Paz de 1979 com o Egito e pela heróica missão de enviar jatos para destruir o reator nuclear de Osirak, Iraque, em 1981.
Também abriu as portas para outra onda de releitura da história israelense, ao enviar tanques para o Sul do Líbano na Operação Paz na Galileia, em 1982.

III.

Desde sempre as fronteiras de Israel estiveram sob pressão externa. Terroristas se infiltravam de Gaza, de Jerusalém Oriental, de todos os lados para cometer atos inomináveis contra a população civil israelense. A Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat operava do Líbano, lançando operações como o Massacre da Estrada Litorânea, em 1978. O Fatah (Movimento de Liberação Nacional Palestino) sequestrou um ônibus na estrada que liga Tel Aviv à Haifa. Trinta e três mortos, entre eles treze crianças e setenta e um feridos. Bases da OLP foram bombardeadas e durante alguns anos, um cessar-fogo garantiu uma certa tranquilidade. Em 1982, a OLP tentou assassinar o diplomata Shlomo Argov em Londres, o que deu ao governo israelense um casus belli, a justificativa para operar uma guerra contra a OLP em solo estrangeiro.

Para tal, generais e políticos israelenses decidiram por se imiscuir na Guerra Civil do Líbano que já durava sete anos, ao lado da facção cristã maronita. A balança demográfica do Líbano era a base de sua política nacional e a chegada de milhares de palestinos após a Guerra de Independência de 1948 criou uma situação de conflito interno. De acordo com as informações para o público, o exército iria atuar no Sul do Líbano para desalojar foguetes em uma missão pontual para acabar com a ameaça terrorista. Os generais já haviam colocado a mira em Beirute, para cercar a cidade, eliminar a OLP de Arafat e assegurar a estadia no poder do líder dos cristãos maronitas, Bashir Gemayel. O objetivo seria ter um governo que assinaria um tratado de paz com Israel. Gemayel foi morto em um comício político por opositores antes de completar um mês como presidente eleito. A operação perdia sentido e a opinião pública israelense já mudava, pois de operação pontual no Sul, a guerra se tornava aparentemente infindável. Se antes as guerras eram dentro de Israel, sem escolha a não ser a defesa, os quatro mil feridos e quase oitocentos mortos contavam uma história diferente.

Entre 16 e 18 de Setembro de 1982, ocorreu o episódio que determinou o fim da participação ativa de Israel no conflito. As tropas das Forças de Defesa de Israel haviam ocupado toda a cidade de Beirute para evitar uma situação de caos após o assassinato do presidente. As tropas cercaram os campos de refugiados palestinos e abriram caminho para milícias leais ao ex-presidente, lançando sinalizadores durante a noite. A milícia se vingou pelo assassinato com a execução de centenas de homens, mulheres e crianças no que se conhece como Massacre de Sabra e Shatila. Os números variam entre 400 e 3.500. As imagens e notícias chegaram à Israel e colocaram mais de quatrocentos mil manifestantes na rua – 10% da população israelense - , pedindo a retirada imediata das tropas e uma investigação do papel do exército no massacre. Muitos dos que protestavam eram soldados da ativa e da reserva.

A comissão independente que investigou a guerra declarou o governo indiretamente culpado, por ter ciência do massacre e não intervir. Porém a mancha na consciência coletiva era clara: uma guerra por opção e passividade face à um massacre. A confiança no governo encontrou uma nova fase de erosão. Havia uma percepção de que os rumos do conflito estavam equivocados e que era necessária uma opção pela paz. Esta visão seria testada em poucos anos, durante o levante da população palestina que ficou conhecido como Primeira Intifada.

IV.

Ninguém sabe dizer como exatamente começou a Intifada. No dia 9 de Dezembro de 1987, um caminhão do Exército israelense colidiu contra um carro que levava civis palestinos. Os quatro viajantes do carro morreram. Um falso rumor se espalhou, dizendo que o acidente havia sido intencional. É dito que neste momento, uma série de organizações e indivíduos iniciaram uma estratégia de desobediência civil contra a administração israelense em Gaza e na Cisjordânia. Ao mesmo tempo, terroristas iniciaram séries de ataques com pedras e coquetéis molotov contra soldados e postos das Forças de Defesa de Israel. Muitos dizem que a ideia inicial era um protesto não-violento, mas as imagens e impressões dos israelenses foi bem diferente.

Gaza e Cisjordânia, após a Guerra de Independência de 1948, eram uma incógnita para os israelenses. Ocupadas pelo Egito e pela Jordânia, suas fronteiras com Israel eram fronteiras com países inimigos. Seus habitantes quando apareciam na imaginação popular, eram terroristas que se infiltravam em Israel para matar inocentes. Após a conquista de 1967, o cenário era outro.

A conquista dos territórios de Gaza e Cisjordânia ficou conhecida por reunificar Jerusalém e abrir o acesso à Judéia e Samaria, os territórios das épocas bíblicas de Israel. Hebron, Beit El, Shechem, estavam ali disponíveis para um passeio. A administração militar resolveu manter o território aberto: sair de carro de Ramallah para Haifa era possível. A ideia de milhares de novos habitantes que no dia anterior estavam alinhados à inimigos de Israel não agradava a ninguém. As minutas do gabinete do Primeiro-Ministro, recém-publicadas pelo Arquivo Nacional de Israel, mostram opiniões divergentes. O ministro das Relações Exteriores, Abba Eban, observou que seria impossível defender um sistema de governo em que parte da população possui direitos civis e outra, não. O Primeiro-Ministro Levi Eshkol mencionou que preferia que os árabes fossem enviados para o Brasil. O Ministro da Justiça Yaakov Shimshon Shapira respondeu que não fazia sentido a afirmação de Eshkol, pois eram habitantes nascidos na terra e o governo israelense era responsável por eles.

 Anos de status incerto e de crescimento do sentimento nacional palestino eclodiram de maneira violenta em 1987, atordoando o governo e a sociedade israelenses. As imagens de jovens jogando pedras em tanques foram traduzidas pela comunidade internacional como uma batalha de opressores e oprimidos. A possibilidade de uma guerra civil e de violência generalizada levou a uma dura resposta por parte das forças de segurança, na esperança de sufocar o movimento. O exército israelense estava lidando com um tipo completamente novo de inimigo. Não eram tanques ou aviões, mas uma guerra assimétrica nas cidades dos territórios.  Palestinos jogavam pedras e coquetéis molotov, que eram respondidos com bombas de gás lacrimogêneo, golpes de cassetete e em casos graves, tiros de fuzil. A resposta dura não adiantou muito, pois por quase cinco anos a revolta foi o estado constante da sociedade palestina. Os números ainda são obscuros, mas aparentemente mais de 2.200 palestinos morreram durante estes anos, sendo mil deles vítimas de disputas internas na sociedade palestina. Trezentos israelenses foram vitimas, a maioria soldados e policiais.

Setores da sociedade israelense, a partir do que viam durante a Intifada e do que viram na Guerra do Líbano, passaram a repensar sua história. A abertura de arquivos nacionais serviu para reler o que se passou em 1948, a se repensar a relação com os árabes em Israel e o papel da ideologia sionista. Uma série de historiadores, sociológos e acadêmicos no geral viam que muito da situação atual era fruto de decisões equivocadas tomadas no passado, e que as elites próximas ao governo manipularam a história. Os chamados “novos historiadores” diziam que aqueles que pesquisavam a história do país até ali apenas reproduziram propagandas do governo. Políticas discriminatórias contra judeus orientais, corrupção e episódios de violência teriam sido abafados. Os documentos contavam uma história muito mais sombria e complexa da construção do país.

O desenrolar da Intifada trouxe uma mudança profunda no conflito entre palestinos e israelenses. A Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat, antes inimiga mortal de Israel, agora era reconhecida como representante legítima e única do povo palestino. Tratados de paz com o Egito e a Jordânia afastavam a possibilidade de guerras como as do passado. Uma série de negociações internacionais passou a vislumbrar um possível fim para o conflito: a criação de dois Estados. Muitos esperavam que tal medida resolvesse de vez a situação de Israel. Finalmente, normalidade. Não haveria mais um conflito com os árabes, o que para muitos significava que a ideologia sionista estava ultrapassada. A identidade nacional de Israel foi moldada profundamente pelo conflito que ainda dura décadas. Finalmente, gerações de jovens poderiam viver como os judeus americanos ou franceses.  Muitos acreditavam que o fim das hostilidades ofereceria a possibilidade de um experimento social em larga escala: a identidade nacional poderia ser mais laica, do foro íntimo de cada cidadão, sem competições ou animosidades. Seria possível caminhar para um chamado pós-sionismo, criando uma identidade universalista e democrática. A ideia de rever a história do país através de uma releitura do passado mostraria que talvez a insistência no peso “judaico” da equação “Estado judaico e democrático” fosse um equívoco.

Os tiros nas costas do Primeiro-Ministro Yitzhak Rabin e os atentados suicidas do Hamas foram um baque para quem nutria tais esperanças. O primeiro evento, um trauma nacional, foi diretamente contra uma ideia milenar da tradição judaica: de que um judeu não derramaria sangue de outro judeu. Yigal Amir era contra a entrega de terras para a paz, uma das condições do Acordo de Oslo de 1994. A ideia era de transferir soberania gradualmente para a nova Autoridade Nacional Palestina, de Arafat, de territórios em Gaza e na Cisjordânia. Para os que viam o território como sagrado, isto era simplesmente traição. Para eles, o governo havia traído os valores eternos de Israel. Para os que apoiavam os setores de esquerda em Israel, uma tragédia que afastou a possibilidade de paz por décadas. A onda de violência homicida dos homens-bomba do Hamas e dos mísseis do Hizbollah aprofundaram a crise ainda mais.

V.

De 1994 até 1999, israelenses conviveram diariamente com atentados suicidas de proporções inimagináveis. Em 2000, Israel ofereceu para os palestinos algo como 86% das terras da Cisjordânia e 100% de Gaza. Os bairros árabes de Jerusalém Oriental seriam administrados pela Autoridade Palestina, formando a capital de Al-Quds. Muitas das demandas do lado de Yasser Arafat estavam fora de questão, como a ideia de um total e irrestrito retorno de todos os refugiados palestinos. Israel se prontificou a receber cem mil deles e a ajudar na reabsorção daqueles que voltassem para o Estado Palestino. Recursos e fronteiras seriam partilhados.

Para a opinião pública israelense, uma oferta inegável. Para os palestinos, as concessões eram irrazoáveis. Não havia autoridade sobre os locais sagrados em Jerusalém, não haveria um exército palestino. O impasse estava sendo manobrado nos bastidores, quando o líder da oposição no Knesset (o parlamento israelense) resolveu subir ao Monte do Templo. Este local é onde estiveram os dois Templos da tradição judaica e de onde os muçulmanos acreditam que Maomé ascendeu aos céus.

Por estar no coração de Jerusalém, naquele espaço, política e religião são um só elemento. O ex-general foi considerado por uma comissão interna do governo israelense como pessoal culpado por omissão no episódio em Sabra e Shatila. Para boa parte da população isralense, não havia problema algum na visita. O espaço, dentro de Jerusalém, era parte da história judaica e dentro da soberania israelense. Para quem via a visita do lado árabe, uma provocação e indicação de que não eram sinceras as intenções de Israel. De um tumulto, eclodiu uma Segunda Intifada que duraria até 2005. Daqui surge mais uma visão sobre Israel: os árabes nunca vão querer paz e somente existe futilidade em resolver o conflito. A onda de violência não era somente reativa, era evidência de que Israel não era aceito como país.

A guerra seria sem fim. A condição israelense seria eternamente de viver isolado em um mar de hostilidades. A questão palestina deveria deixar de estar na frente dos problemas. A retirada de Gaza em 2005 somente intensificou este sentimento após cinco anos de atentados diários contra a população civil israelense. O desmantelamento das comunidades judaicas na Faixa de Gaza foi recebido com mísseis. Criar dois Estados seria o fim de Israel, uma plataforma para grupos terroristas finalmente acabarem com o Estado Judaico e possivelmente, reencenar o Holocausto. Oslo era uma mentira, os palestinos são uma mentira. As violências do passado somente mostravam que foi feito o que era necessário para manter o país seguro. O sionismo de esquerda deveria ser substituido por uma versão mais judaica, rejeitando o individualismo do pós-sionismo. Israel deveria ser um país que confia apenas em si mesmo.

VI.

Estes episódios são uma fração de frações da história de Israel. São alguns dos dilemas que surgiram em seus setenta anos: o que é um Estado Judeu e democrático? Até onde se pode ir para garantir a segurança nacional de Israel? Existe racismo na sociedade israelense? A paz é possível? Se sim, que paz, existe um plano para tal fim? O que é ser o único Estado judaico do mundo? Como lidar com um gerações perpassadas por guerras e atentados infindáveis? Como lidar com um passado que por muitas vezes é profundamente incômodo? O que é ser judeu? O que define quem é judeu ou não? Israel é suficientemente judaico? O que é ser israelense? O que faz de Israel o que é e o que deve ser Israel?

Recentemente, veio á tona uma crença generalizada de que o historiador – e aquele que lida com as humanidades no geral – escreve narrativas que nada mais são do que produtos de inclinações políticas. Nesta perspectiva, se o texto não se conforma com certo espectro ideológico, ele nada mais é do que falsificação, propaganda ou mesmo traição. Esta tendência aparentemente mundial, perpassa Brasil e Israel, Estados Unidos e Europa, no rastro da ascenção de setores populistas e tem criado uma atmosfera de anti-intelectualismo reativa à produção da academia. É uma espécie de “A Traição dos Intelectuais”, de Julien Benda, ao revés. Se antes, os intelectuais estariam traindo a causa da busca pura do conhecimento para justificar nacionalismos e racismos, agora estão traindo as pressupostas dimensões naturais da humanidade com suas teorias universalistas e demandas por igualitarismo.

No que isto nos importa ao falar sobre os setenta anos de Israel? Como judeu, sionista, israelense, brasileiro e parte do establishment acadêmico, percebo que visões sobre Israel e sionismo aparentemente são julgadas não somente por sua coerência. Aparentemente, tantas outras credenciais são parte fundamentais do julgamento, como percebidas posições políticas (podem ser o suficiente para interditar o texto por completo) ou filiação étnica ou religiosa.

Tais posições ignoram que o debate surge, na imensa maioria das vezes, de dentro da sociedade israelense. Tais críticas e dilemas foram frequentemente tratados como traição: os judeus orientais seriam ingratos, os religiosos seriam acusados de querer transformar Israel no Irã, a esquerda de querer desmantelar o Estado, os acadêmicos pós-sionistas seriam falseadores da verdade para caluniar Israel. Nesta versão, qualquer narrativa conflitiva é munição para antissemitas. Nada mais falso.

Cada geração israelense passou por um pequeno desmonte das gerações passadas. Israel é tanto o acúmulo destas experiências e críticas, quando seus sucessos. Este texto poderia contar setenta anos de Israel através das lentes da cidade de Beersheva, onde moro. Aqui vimos uma cidade menor no meio do deserto do Negev receber imigrantes de todas as diásporas judaicas. Marroquinos, tunisianos, imigrantes das ex-Repúblicas Soviéticas. A cidade viveu atentados, viveu os tumultos de Wadi Salib em 1959, viveu a crise econômica dos anos 1980, agora vive a possibilidade de ser o futuro centro de alta tecnologia do país. Existem problemas com drogas, problemas com crimes, existe uma zona de prédios com empresas que esperam o momento de serem vendidas por milhões de dólares, existem prédios dos anos 1950 que abrigam pessoas que não sabem o que vão comer no fim do mês. Dez por cento dos seus habitantes são árabes. Navegar por estas peças difíceis é o que faz possível ver o quebra-cabeça por completo. A experiência é kal va-homer, do mais leve para o mais pesado, do mais simples para o mais complexo.

Os setenta anos dos Estado de Israel se assentam em dois mil anos de dispersão judaica, em setenta anos de Auschwitz, em cinquenta anos da Guerra dos Seis dias, em aproximadamente seis milhões e quinhentos mil habitantes judeus, um milhão e oitocentos mil árabes e quatrocentos mil que não pertencem a nenhum destes grupos. A sua força está em ser este imenso campo de ideias, o qual, felizmente faço parte como cidadão. Espero poder revisitar este texto em 2048, no centenário do país. Por enquanto, um chag haatzmaut sameach.


Leonel Caraciki é doutorando no Centro de Estudos de Israel e Sionismo na Universidade Ben-Gurion do Negev. 

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