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A face mais grotesca de Israel tem um partido político

Por Leonel Caraciki
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Meir Kahane

Pessoas com ideias horríveis existem em todos os lugares do mundo. Jean-Marie Le Pen, um admirador do nazismo e antissemita declarado, não teve seus direitos cassados na França e seu partido sempre esteve representado na Assembléia Nacional. Nos EUA, David Duke, um conhecido nome da Ku Kux Klan – o movimento racista cujo objetivo é transformar os Estados Unidos em um Estado supremacista branco – chegou a ser eleito para Legislatura do Estado de Indiana. No Brasil, no meu estado do Rio de Janeiro, o já falecido vereador Wilson Leite Passos era um negacionista do Holocausto que tentou passar uma lei de eugenia que daria benefícios fiscais para pais de crianças sem deficiências físicas ou cognitivas. 

Israel, como uma sociedade normal, não é diferente. Nos anos 1980, um rabino americano de nome Meir Kahane imigrou para Israel trazendo ideias grotescas:

1. Não-Judeus residentes em Israel teriam somente autorização de residência temporária, sem cidadania, sem direitos políticos ou qualquer posição de autoridade;

2. Nenhum não-judeu teria permissão de morar nos limites municipais de Jerusalém;

3. Judeus e não judeus não poderiam se casar, em Israel ou no exterior. Tais relações não seriam reconhecidas;

4. Quaisquer relações sexuais entre judeus e não-judeus seriam proibidas por lei e punidas com prisão de até cinquenta anos;

5. Instituições educacionais mistas, atividades coletivas entre grupos "mistos" seriam ilegais;

6. Instituição de praias separadas para judeus e não-judeus.

Tais ideias foram aventadas por Kahane quando foi eleito para ser deputado no Knesset. Sua postura de ser duro contra terrorismo acabou por conquistar um número considerável de seguidores. O establishment político repudiava a própria existência de Kahane, cujos discursos encontravam um parlamento vazio, já que era boicotado por todos os outros deputados. Seu partido foi banido por promover racismo. Kahane acabou por ser assassinado durante um discurso em Nova York, por um extremista paquistanês que eventualmente participaria do atentado terrorista contra o World Trade Center, em 1993.

Kahane tinha muitas outras ideias. Ele advogava a favor da violência contra árabes e que Israel deveria conquistar as fronteiras bíblicas, do Eufrates ao Jordão, e que uma guerra interminável seria inevitável de qualquer maneira. Suas ideias encontraram um eco claro nas ações de Baruch Goldstein, um médico que um dia entrou no Túmulo dos Patriarcas e massacrou a sangue frio vinte-e-nove fieis muçulmanos que ali rezavam.

Yitzhak Rabin, na época Primeiro-Ministro de Israel, deixou claro que Goldstein era uma vergonha para o Judaísmo e o Sionismo. O movimento Kach, baseado nas ideias de Kahane, foi considerado ilegal e seus seguidores proscritos da vida social e política de Israel, vivendo em partes marginais e radicais da sociedade. Porém, suas raízes se fincaram nas franjas aqui e ali.

A vasta maioria das sociedades vai invariavelmente ter seus extremistas nos dois lados do espectro político, e no geral, existe um limiar de quanto eles podem expressar suas opiniões tenebrosas em público. No geral, a linha é traçada quando há incitação contra a ordem pública e ameaças diretas à indivíduos e grupos.

No caso atual, o partido "HaTzionut HaDatit", ou em tradução direta "Sionismo Religioso" é exatamente esta amálgama de opiniões nefastas e racistas que representam ideias fascistas e de superioridade racial. São as raízes do Kach saindo para a superfície. E tal partido foi alçado ao sistema político por uma estratégia cínica do atual Primeiro-Ministro de Israel, Benjamim Netanyahu.

Primeiramente, um aparte. O Sionismo religioso é uma opção política legítima pela qual eu nutro muita simpatia e também um certo grau de discordância. Sua história política viu nomes como o Rabino Reines, Rav Kook, os Rabinos Yehuda Amitai e Aharon Lichteinstein e o Rabino Yeshayahu Hadari Z"L, com que tive o prazer imenso de passar um shabat na Yeshivat HaKotel, onde passei talvez os melhores momentos da minha vida em Israel. Aprendi uma visão de judaísmo inquisitiva, que entendia o espaço do conhecimento acadêmico na vida do indivíduo que escolhe uma opção de vida na ortodoxia. Fiz amizades pessoais e intelectuais das quais me orgulho imensamente, e descobri o mundo do shabat, do Talmud e das discussões infindáveis da lei judaica. Nem sempre concordo com meus pares na suas visões políticas mas, porém, discordo de tantas outras posições de outros amigos.

Portanto, o nome do partido já é um problema – ao sequestrar um campo inteiro para seus desígnios políticos.

O primeiro dos grupos que formam o partido é chamado Noam. Suas posições são: contra homossexuais e contra qualquer ideia de judaísmo que não seja uma versão radicalmente ortodoxa, desconectado de qualquer influência secular. Acreditam que existe uma campanha que promove valores LGBT em Israel e que o "judaísmo reformista" – um termo para qualquer versão de judaísmo ligeiramente mais liberal – está destruindo os valores judaicos de Israel. 


O segundo é o partido Otzma Yehudit (A Força Judaica), sob a tutela de Itamar Ben-Gvir (na foto acima), um advogado que sempre aparece nas notícias defendendo terroristas judeus. Terroristas – que queimam campos de residentes palestinos da Cisjordânia, os que jogaram coquetéis molotov em uma casa em Duma, matando um bebê árabe, o que esfaqueou Shira Banki durante a parada LGBT de Jerusalém e os vândalos que rotineiramente atacam manifestantes contra Netanyahu com facadas, golpes de porrete e spray de pimenta. Além das credenciais impecáveis, Ben-Gvir tinha até pouco tempo atrás uma foto de Baruch Goldstein, o médico que fuzilou vinte e nove fieis pelas costas, em sua sala.


O terceiro é o "Partido Religioso-Sionista" de Bezalel Smotrich (na foto acima), conhecido por dizer que Israel iria logo adotar a lei do Rei David, que procurou terminar com a parte da Lei do Retorno que permite que netos de judeus imigrem para Israel, que disse que preferiria que seus filhos não estivessem na mesma maternidade que bebês árabes e que é um "homofóbico orgulhoso".

Esta trindade de cretinos políticos ganhou a chance de concorrer ao parlamento, já que o atual primeiro-ministro, por acreditar que se os partidos concorressem nas próximas eleições, iriam desperdiçar os votos do bloco da direita (não da direita, mas do bloco de que Netanyahu precisa para se manter no poder. Eu não tenho problema de considerar votar em Gideon Sa'ar, que é um homem da direita histórica israelense e já avisou que não montaria uma coalizão com tais indivíduos). 

Algumas pessoas acreditam que "valores judaicos" são somente os da democracia, de direitos humanos e de ética humanista. Isto é essencialismo. Os valores judaicos são disputados, e também podem ser citados para justificar posições quase-fascistas sem problemas por três homens que usam uma kipá na cabeça e se dizem extremamente religiosos.

Talvez você acredite que seja algo irrelevante. Eles provavelmente irão ganhar entre quatro ou cinco assentos na próxima eleição, porém é provável que não sirva de nada, pois nenhum dos lados terá números para formar uma coalizão com sessenta e um deputados, o mínimo para criar um governo.

A questão, além da viabilidade de tal partido entrar no governo, é clara: a existência de tal entidade, possivelmente como membro da coalizão, é uma deterioração do status de Israel como um país democrático e amante da paz, aberto para os judeus da Diáspora. Caso o partido entre no governo, vocês estão preparados para o Ministro da Diáspora Bezalel Smotrich, que iria procurar cancelar o direito de filhos de pai judeu de fazerem aliá? Que iria insultar os judeus não-religiosos de sua posição de ministro? Com Itamar Ben-Gvir, Ministro da Justiça, procurando desmontar o sistema democrático da Suprema Corte? Com seja quem for do Partido Noam em qualquer posição de governo?

E mesmo que eu saiba que o mundo inteiro tem seus políticos cretinos, me dói escrever o que escrevi. Ver três descendentes políticos de um homem que promoveu o equivalente das 

Leis de Nuremberg como candidatos nas eleições me dói imensamente. Que seus nomes sejam apagados da história, rapidamente e em nossos dias.


Leonel Caraciki é Diretor de Fundraising na Organização Rabínica Tzohar e Doutorando no Centro de Israel e Sionismo da Universidade Ben-Gurion do Negev. É pesquisador no grupo "Israel e o Mundo Judaico".

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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