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Pela livre participação de Israel na Parada LGBT de SP

Por Karina Calandrin
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Israel está longe de ser perfeito quando se trata do tratamento igualitário de sua comunidade LGBT, mas quando comparado a outros países da região e até mesmo no mundo acaba por se destacar positivamente. No entanto, de acordo com muitos militantes e analistas, o verdadeiro objetivo da parada do orgulho LGBT de Tel Aviv seria um trabalho para fornecer uma distração sobre a opressão do país aos palestinos. Esta campanha de propaganda é conhecida como pinkwashing.

Neste domingo, dia 03 de junho de 2018, acontece a parada do orgulho LGBT de São Paulo e que neste ano contará com um bloco da parada de Tel Aviv como parceria do Consulado Geral de Israel em São Paulo, da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil e da rede AccorHotels. Como forma de resposta, movimentos a favor do BDS (Boicote – Desinvestimento – Sanções), que buscam o boicote econômico, acadêmico, cultural e político ao Estado de Israel, criaram outro bloco chamado de Bloco LGBT – Palestina Livre.

Pessoas heterossexuais e cisgêneras são as pessoas mais visíveis, não apenas por seus números, mas porque suas relações, sexualidade e expressões de gênero são vistas como expressões normativas e, portanto, elevadas e repetidas em todas as comunidades. As pessoas cisgêneras e heterossexuais dão as mãos enquanto andam pela rua, demonstram afeto aos seus parceiros e se expressam sexualmente sem medo de serem abordadas. A maioria dos anúncios publicitários nas ruas, sites e na televisão são sobre pessoas heterossexuais e cisgêneras. Em resumo, pessoas heterossexuais exibem sua retidão o dia todo, todos os dias, em todas as partes do mundo. O Brasil desponta como o país que mais mata LGBTs no mundo, com uma morte a cada 19 horas, os direitos e a dignidade da comunidade LGBT não são totalmente protegidos pela lei e, de fato, há movimentos que buscam oprimir e marginalizar essa população. Para muitas pessoas LGBT, a parada do orgulho LGBT é a única época do ano em que elas podem sair e se orgulhar de quem são e de quem amam. É a única vez do ano em que elas podem sair corajosamente nas ruas com multidões de outros indivíduos da comunidade, proclamando que são humanos e merecem ser celebrados. Este é o objetivo das paradas do orgulho LGBT no Brasil e ao redor do mundo.

É inegável a violência, a ocupação e todas as outras ações condenáveis perpetradas pelo governo israelense há décadas em relação ao povo palestino e suas terras e a campanha contra o pinkwashing tem seu valor de discussão e debate. Todavia, o movimento contra o bloco de Tel Aviv tira o real foco da parada do orgulho LGBT de São Paulo que é de dar espaço para todas as vozes da comunidade LGBT que nos demais dias do ano são silenciadas.

(Foto: Paulista lotada na Parada LGBT de 2018. Crédito: Mitchel Diniz/Globonews)


Karina Calandrin é Doutoranda e Mestre Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP), Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-UNESP). É filiada da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), a Asociación Latinoamericana de Ciência Política (ALACIP), a Latin American Studies Association (LASA) e da World Union of Jewish Studies.

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