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Netanyahu e a recente escalada de violência entre Israel e Palestina

Por Karina Calandrin
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Foto: Reuters

A atual crise que emergiu entre Israel e Palestina tem sido discutida sobre diferentes espectros, mas pouco tem se falado sobre a relação com a crise política israelense e a possível saída de Benjamin Netanyahu do poder. É indiscutível que sua maior arma ao longo dos 12 anos que esteve enquanto primeiro-ministro de Israel foi a construção de um discurso sobre ameaça, disseminando a narrativa do medo sobre a sociedade israelense.  

Toda uma geração de israelenses judeus, criados em um Israel “seguro”, já cresceu sem nenhuma consciência da Linha Verde. Eles ouviram histórias sobre as intifadas, mas a narrativa presente era que o conflito havia sido superado graças à administração do governo. Os Acordos de Abraão com os Estados do Golfo pareciam provar que não havia mais "Questão Palestina". O que não foi considerado nesta narrativa era que para os palestinos o conflito nunca terminou. Nos últimos meses, a tensão foi aumentando, desta vez não na Cisjordânia ou em Gaza, mas entre os cidadãos palestinos em Israel.

Benjamin Netanyahu construiu a narrativa da segurança para judeus israelenses a partir de uma força policial subserviente, da mídia nacional, do neoliberalismo e da tentativa de cooptação de políticos selecionados entre os cidadãos palestinos de Israel. A polícia israelense, nos últimos anos, tornou-se conhecida pela repressão violenta de qualquer grupo que ousa desafiá-los. A classe média e alta ashkenazita, em sua maioria, foram, historicamente, poupadas de grande parte da violência. Já os etíopes, os Haredim, Mizrahim, e, claro, árabes, são mais atingidos.

Desde o início do Ramadã, há quase um mês, a força policial israelense tem se colocado a postos frente às agressões mútuas entre palestinos e judeus israelenses em Jerusalém, representando uma provocação aos palestinos, desde a barricada dos degraus no Portão de Damasco, os golpes dados aos manifestantes (muitas vezes unidos em solidariedade pelos judeus israelenses) no Sheikh Jarrah, e mais recentemente o uso de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral dentro da mesquita de Al-Aqsa. A repressão policial é apoiada por Amir Ohana, ministro da Segurança Pública, que representa o Estado cada vez mais autoritário de Netanyahu.

O governo de Netanyahu manteve seu apoio político e sua legitimidade perante a maioria da população judaica israelense, de acordo com pesquisas, a partir do crescimento econômico dos últimos anos e também ao combate eficaz à pandemia da covid-19 a partir da vacinação em massa. 


Fonte: GALLUP

A forte economia teve impacto positivo em Tel Aviv, por exemplo, Israel está há anos crescendo em rankings internacionais como a “nação start-up”, atraindo investimentos internacionais de empresas de alta tecnologia e israelenses em expansão no exterior. A moeda local, o shekel, teve uma valorização ao longo dos anos do governo Netanyahu e permitiu que israelenses de todas as classes sociais passassem férias no exterior.

Todavia, para a maioria dos palestinos a história é muito diferente. Em Jerusalém Oriental, os palestinos enfrentam crescentes ataques aleatórios de supremacistas judeus, muitas vezes por membros de grupos colonos que travaram uma campanha de uma década de pressão legal e despejos. Os residentes que deixam Jerusalém para o exterior, para melhorar sua educação ou suas perspectivas econômicas, muitas vezes perdem seus direitos de residência.

Depois há a ascensão de Mansour Abbas e seu partido islâmico Ra'am, a quem Netanyahu cortejou com grande entusiasmo na esperança de construir uma coalizão e formar o governo. Para alguns analistas era uma boa notícia e um indicativo de mudanças na política israelense, e por um tempo, Abbas retribuiu, prometendo deixar sua identidade palestina de lado em favor de um governo de direita que daria aos árabes de fato participação, apenas para descobrir que os outros parceiros de coalizão, da lista kahanista de extrema direita, o rejeitaram porque ele é árabe.

O objetivo de Netanyahu é se manter como primeiro-ministro, por um projeto de poder e pelos processos de corrupção que está enfrentando. E ele pode até conseguir alcançar o objetivo de garantir que seus rivais Yair Lapid e Naftali Bennett não sejam capazes de formar um governo, e com Abbas percebendo que uma escalada Israel-Hamas deixa sua adesão a qualquer governo insustentável.

A escalada da situação entre o Hamas e Israel é a prova disso. Nos últimos dias centenas de foguetes foram disparados de Gaza em direção a cidades israelenses e com foco estritamente em alvos civis. A situação se mostra insustentável: civis israelenses de fato com medo a ouvir o som de sirenes avisando que mais foguetes foram lançados e palestinos reféns da possibilidade de Israel revidar e as consequências serem ainda mais devastadoras. 

Entretanto, um primeiro-ministro imbuído da responsabilidade que o cargo exige, teria controlado a polícia, conduzido um verdadeiro diálogo com a liderança árabe, observado o status quo no Monte do Templo, anunciado um plano para investir na sociedade árabe, mas acima de tudo, teria preservado as instituições israelenses e a democracia.


Karina Calandrin é Doutoranda e Mestre Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP), Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-UNESP). É filiada da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), a Asociación Latinoamericana de Ciência Política (ALACIP), a Latin American Studies Association (LASA) e da World Union of Jewish Studies.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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