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Israel sobreviveu 70 anos, mas conseguirá sobreviver ao governo de Benjamin Netanyahu?

Por Karina Calandrin
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Israel completou 70 anos de independência com cerimônias oficiais e eventos abertos. Entretanto a questão que já despontava em 1948 permanece sendo o cerne da política pública e do debate na sociedade israelense: a questão palestina. O Dia da Independência de Israel simboliza a catástrofe nacional do povo palestino (Nakba) e isso o Estado não pode ignorar, mesmo que seja extremamente angustiante.

Para os cidadãos árabes de Israel e para os palestinos que vivem sob ocupação israelense há 51 anos, o dia do estabelecimento do Estado foi o dia em que perderam suas aldeias, cidades, seu território e sua dignidade. Quem quer que seja culpado por isso não pode deixar de compreender os sentimentos de dano e luto de um povo que perdeu sua terra.

Mas a situação é muito pior. Para muitos palestinos, a Nakba não terminou com o estabelecimento do Estado de Israel, só começou. Para eles, Israel não mudou sua abordagem desde então: a política de desapropriação e despejo seguiria acontecendo.

Enquanto um Estado palestino não for estabelecido, a Nakba e o luto dos palestinos - e dos cidadãos árabes de Israel entre eles - não acabarão. "Eu não posso ser parceiro de sua alegria", escreveu o líder do partido Lista Árabe Conjunta, o parlamentar Ayman Odeh, acrescentando: "enquanto você se recusa a reconhecer o passado e agir para reparar a realidade atual, não podemos construir juntos um futuro para os judeus e árabes neste país”.

O que podemos observar a cada movimento do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu governo é a gradual substituição de um Estado de Israel único e independente por uma confederação na qual Israel e Palestina serão entidades governantes, coexistentes, culturalmente distintas e codependentes (com a Palestina sendo mais dependente de Israel do que o contrário).

Como demonstrou a analista de opinião pública Dahlia Scheindlin, a maioria dos israelenses pode apoiar a abordagem geral da confederação. Todavia, isso não vai acontecer tão cedo. Mas dadas as realidades atuais, uma confederação pode um dia ser inevitável, frente à ocupação israelense na Cisjordânia que não para de crescer.

As decisões do governo atual do Likud apenas estão tornando cada vez mais distante a solução de dois Estados nos moldes dos Acordos de Oslo de 1993, e tornando insustentável a atual realidade de um Estado para Israel pré-1967, um segundo Estado para os colonos da Cisjordânia e um terceiro para os palestinos da Cisjordânia. Se Israel não puder mais realisticamente transferir os colonos - ou os palestinos - para fora da Cisjordânia, se Israel se recusar a dar aos palestinos o direito à cidadania israelense e ao voto, então o próprio governo está criando as condições sob as quais uma confederação pode ser a única opção sustentável para o futuro na região.

E o que acontece enquanto isso? Israel vai, aos poucos, deixando a imagem de refúgio para os judeus de todo o mundo e passa a ser visto com ressalvas vis-a-vis o direito internacional, uma vez que os palestinos que habitam a Cisjordânia e Gaza não possuem cidadania israelense, mas muitos são obrigados a trabalhar diariamente em Israel por não possuírem oportunidades de trabalho suficientes nos territórios. E por não serem cidadãos israelenses de fato não possuem direitos trabalhistas iguais aos dos habitantes de Israel. Uma brecha do direito que permite ao governo israelense se aproveitar da situação, não tendo anexado a Cisjordânia, entretanto usufruindo diariamente de seu território. 

Ao mesmo tempo o governo de Benjamin Netanyahu, envolvido diretamente em escândalos de corrupção, promove o repúdio a todos aqueles que criticam as ações de sua administração, desde a construção de assentamentos, ocupação, deportação forçada de solicitantes de refúgio africanos até atirar e matar manifestantes desarmados do outro lado de uma fronteira.  

Os 70 anos de Israel não foram fáceis para nenhum dos envolvidos no processo, mas tempos de bonança estão longe de chegar. 



Karina Calandrin é Doutoranda e Mestre Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP), Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-UNESP). É filiada da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), a Asociación Latinoamericana de Ciência Política (ALACIP), a Latin American Studies Association (LASA) e da World Union of Jewish Studies.

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