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As relações entre Israel e Líbano e as possibilidades de um novo confronto com o Hezbollah

Por Karina Calandrin
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Israel e o grupo Hezbollah mantêm um equilíbrio de terror baseado em armas convencionais. O poder destrutivo desencadeado por ambos os lados durante a Segunda Guerra do Líbano em 2006 ainda ameaça os cidadãos israelenses e libaneses. Além disso, cada lado desde então aperfeiçoou suas vantagens relativas e compreende melhor o poder destrutivo na disposição do adversário.

É possível supor que, chegando uma Terceira Guerra do Líbano em um futuro próximo, Israel e Hezbollah declararão realizações militares, mas o verdadeiro significado da "vitória" seria medido de acordo com as métricas civis, a saber, a capacidade de manter uma vida tranquila e normal por um período razoável de tempo. Tal guerra, no entanto, terminaria em um desastre mútuo na frente civil. Espera-se que cada lado pague um forte preço social e econômico. Seria necessário um longo período de reconstrução, após o qual prevaleceria um status quo tenso, comparável, na melhor das hipóteses, à situação atual.

A opinião geral, principalmente em Israel, diz que outra guerra com Hezbollah é inevitável e apenas seu tempo é desconhecido. Mas a renúncia ao pressuposto de que a guerra vai ocorrer é semelhante à aceitação de uma derrota destruidora. A alternativa é colocar um objetivo ambicioso - a prevenção de tal guerra, não o adiamento.

A consecução de tal objetivo depende de três componentes: dissuadir o Hezbollah, evitando uma guerra, considerando movimentos para evitar uma escalada. Israel tornou o dilema mais difícil, sugerindo possíveis ataques preventivos no Líbano. No pressuposto de que ambos os lados não buscam uma escalada, parece que eles precisarão de confirmação de que este é o desejo do outro lado também.

Mas, ao contrário da Guerra Fria, não existe uma linha direta entre Jerusalém e Beirute. A presença da Rússia na Síria criou complicações para Israel, mas pode permitir a mediação entre os lados, possivelmente também com o Irã, para evitar erros de cálculo. Um ataque israelense na Síria ou no Líbano certamente poderia desencadear um contra-ataque pelo Hezbollah, mas se isso for percebido como proporcional, ele pode ser contido sem mais escalada.

O Hezbollah começou como um grupo político com um braço armado, mas evoluiu para um exército eficiente e um partido político que assumiu o Líbano.  Os interesses intra-libaneses determinam em grande parte suas operações.  A dominação do parlamento do Líbano após as eleições de maio de 2017 destacou-se negativamente, mas o domínio político realmente impõe ao Hezbollah uma grande responsabilidade pelo destino do país. Uma vez que o exército israelense se retirou do sul do Líbano, a organização não iniciou uma guerra com Israel, e não há indícios de que esteja disposto a atacar Israel e pôr em perigo sua sobrevivência, por enquanto. 

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, desempenha um papel fundamental na organização do grupo. Ele lidera o Hezbollah há 26 anos, e as ações de Israel em 2006 deixaram uma grande impressão nele. Após a guerra, ele declarou que, se ele soubesse como Israel responderia ao sequestro de dois soldados, ele não teria lançado essa operação. É do interesse de Israel que ele permaneça no comando. Seu sucessor pode ser menos razoável ou menos sensível à dissuasão.

Em novembro de 2017 uma crise política teve início no Líbano com uma ameaça de renúncia do Primeiro-ministro, Saad Hariri, após uma visita à Arábia Saudita. O Hezbollah e o Irã compreendem bem a ameaça representada por uma renúncia de Hariri e a resposta do Irã a ela - que "a renúncia foi um acerto entre Arábia Saudita e os Estados Unidos" - revela seu medo de perder o controle do Líbano, que até agora foi executado mais ou menos para a satisfação de Teerã. Ainda assim, é prematuro imaginar cenários sob os quais o Hezbollah exploraria a renúncia para atacar Israel, a fim de demonstrar seu contínuo controle sobre a arena política. Mas é plausível que os sauditas estejam tentando criar um contexto para um meio diferente de contestar o Irã no Líbano: uma guerra Israel-Hezbollah.

Ao afastar Hariri do cargo de primeiro-ministro, talvez esperassem que o Hezbollah se sentisse preso com a culpa e a responsabilidade pelos desafios do Líbano e de cuidar dos refugiados sírios. Isso poderia, acreditaram os sauditas, levar o Hezbollah a buscar um confronto acelerado com Israel como forma de unificar o apoio libanês para o seu domínio. 

Novamente, o apoio de Teerã é fundamental para o Hezbollah. Em longo prazo, houve acontecimentos positivos no Irã que podem acabar restringindo o Hezbollah. As manifestações recentes contra o envolvimento regional do Irã refletem um debate na sociedade iraniana que só se intensificará. Nos próximos anos, um líder menos rígido pode substituir o aiatolá Ali Khamenei. Um candidato é o presidente Hassan Rohani, que procura conter o poder da Guarda Revolucionária e integrar melhor o Irã na comunidade internacional. Acima de tudo, há uma crescente maioria entre os eleitores que se opõem à forma como o regime está operando. Para sobreviver, o regime deve considerar melhor a opinião pública e a economia. 

Não se pode prever como esse processo será executado, mas seria a estratégia correta para evitar a guerra. O sucesso dessa estratégia depende em grande parte de Israel e da postura que o governo israelense irá adotar de forma a mitigar ou não as probabilidades de um conflito. 


Karina Calandrin é Doutoranda e Mestre Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP), Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). É pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-UNESP). É filiada da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), a Asociación Latinoamericana de Ciência Política (ALACIP), a Latin American Studies Association (LASA) e da World Union of Jewish Studies.

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