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O Êxodo, a Trégua, a Travessia. E nossa Quarentena

Por Heloisa Pait
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“A Trégua” é um dos melhores livros que já li. É um livro de agradecimento, apesar das atribulações que descreve. O livro começa onde se interrompeu “É isto um homem?”, onde Primo Levi relata sua experiência como prisioneiro num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, com a libertação do autor pelos soldados russos. E termina quando ele finalmente chega em casa, 10 meses depois. Nesse tempo, ele fica em poder dos soldados russos, junto com outros sobreviventes, numa trajetória errática pela Europa, até se reencontrar com a família, que a princípio tem dificuldade até de reconhecê-lo. Ainda jovens, e um tanto eufóricos pela vida devolvida, os ex-prisioneiros reaprendem a vida sob tutela soviética, se metendo numa porção de confusões que fazem da leitura do livro uma experiência agradável, pontualmente lembrada pelo massacre que deixaram para trás e pelas incertezas do futuro. Pouco antes de chegar na Itália, Levi passa pela Vienna derrotada. E vê lá uma falta de vigor maior que nas dilaceradas cidades polonesas que teimosamente se organizavam em mercados, mesmo que de restos de restos da guerra. Ao final do livro, Levi agradece aos russos pela trégua concedida, por um intervalo de vida entre Auschwitz e os pesadelos de Auschwitz que iriam povoar suas noites dali adiante.

A trégua era entre a catástrofe inimaginável e a catástrofe a cada momento imaginada, lembrada, que havia sido suspensa nos dez meses de perambulação quase pueril, roubando galinhas e fazendo traquinagens. O agradecimento aos russos pode parecer irônico, mas pode também ser de uma sinceridade pungente: obrigado. De qualquer forma, está dentro da tradição da escrita judaica, onde sentidos múltiplos convivem sem antagonismo, sem querer um sufocar o outro. E também está dentro, esse livro, da tradição judaica do Êxodo, apesar de ser um êxodo todo ao contrário, ao lado de jovens baderneiros, guiado por comandantes russos, de um inferno pior que o do Faraó e de volta a um lar que não era prometido, era apenas o lar original de onde se foi arrancado por engano. Mas “A Trégua” é sim, na minha opinião, uma Hagadá, uma história de libertação, que contém o necessário intervalo, como o de 40 anos no deserto, até a Terra Prometida, mas cuja chegada final ainda será repleta de armadilhas. Aqui um pequeno parêntese: muitos dizem que Primo Levi se matou e isso simplesmente não é verdade. Digo isso pois me irritam as informações incorretas de que Walter Benjamin, morto pelos soviéticos, ou que Primo Levi, vítima de uma queda doméstica, tenham cometido suicídio. Sobre isso leiam o artigo de 1999 “Primo Levi's Last Moments”, na Boston Review, por Diego Gambetta.

Outro livro que está entre meus favoritos, um livrinho pequeno mas poderoso, é “Max e os Felinos”, de Moacyr Scliar, um livro obviamente mais leve, onde a sombra do Holocausto aparece como fábula e não como experiência sensível. Mas também aí há uma travessia, um intervalo de medo e perigos, de confusão entre sonho e realidade, e de preparação para uma chegada num lugar novo, prometido, mas também desconhecido e inóspito. A travessia era tão boa que foi plagiada, e Moacyr era tão bom que não processou o gajo. Max não é um Moisés visionário, é um sujeito mais medroso, oprimido pelo pai que vai se virando por aí como pode, tentando escapulir dos “seus felinos”, com quem ele finalmente faz as pazes, ao final do livro, um final aliás tão belo e pungente que sempre me conforta, quando estou me engalfinhando com os meus.

A história do Êxodo é uma história complexa, distinta da história do Gênese, que é assemelhada a outras histórias míticas. Ela começa com um povo unido por uma experiência comum e uma posição de classe comum, e termina com um povo regido por leis claras, organizado politica e doutrinariamente. Pensando bem, conhecendo os homens, é mais milagroso que a criação do mundo. É uma história que forja a identidade deste povo, ainda que seja também parte da herança cultural comum de outros povos. O cristianismo retoma a idéia da jornada heróica, mas não de um povo e sim de um homem divinizado, cuja morte e ressurreição são contadas como um símbolo de toda uma fé, de uma comunidade que se encontra exatamente em torno deste milagre impressionante: a Santa Ceia (um jantar de Pessach), a Via Crucis, a crucificação seguida da redenção final. Mais recentemente, o Êxodo é recuperado pela luta dos negros americanos pela liberdade, no século XIX, com a música “Let my people go” (ouçam a poderosa versão de Paul Robeson) e depois pelo movimento dos direitos civis, particularmente pelo pastor Martin Luther King. O texto bíblico chega a eles através dos cultos protestantes que retomaram a leitura do Antigo Testamento, e recebe um contorno muito apropriado: a organização cívica em torno de um ideal comunitário de liberdade. 

Mesmo tomando esse caráter universal, ela continua sendo uma história cara à identidade judaica, traduzida de vários modos e em várias épocas, sendo ao mesmo tempo cultuada de modo familiar e coletivo. A figura de Moisés, líder muito humano, irascível e grandioso, é uma figura de que se vestem os patriarcas familiares, os orientadores de tese de doutorado, os chefes militares de Estados modernos e outras figuras masculinas e também femininas que nos colocam à prova mas nos guiam com segurança ao mesmo tempo. As grandes migrações, as lutas políticas, as grandes travessias deste povo ou das nações onde se encontram terão o Êxodo como referência: a idéia da determinação e também do intervalo, da pausa, do espaço para a articulação coletiva em novas bases. Quando a diáspora ocorre, no começo da Era Cristã, depois que esse povo já usufruiu séculos de organização autônoma, a idéia da organização em torno de princípios básicos e escritos ganha nova importância. Desta forma, a celebração viva, pelo seu conteúdo e pelo seu formato, ganha novos sentidos a cada momento histórico.

A travessia que estamos fazendo agora é inaudita. Estamos fugindo parados de uma peste. A travessia heróica, homérica, ou mosaica, não cabe. “Fique em casa” é o melhor que podemos fazer. Continue o que você já faz, ainda que precariamente, do computador, de seu “home-office”. Por mais que tentemos transformar esse confinamento numa renúncia heróica, ele é essencialmente passivo, ao menos no plano físico. E isso é desconcertante. Queremos fazer, ser úteis, agir, mas nossa grande aventura (para a maioria de nós) é ir ao supermercado e voltar sem trazer nenhum vírus para casa. É um heroísmo negativo. Mas é um heroísmo, ou cautela, justificados. Nem todos vamos chegar à Terra Prometida intactos dessa peste e nossa cautela pode salvar as nossas vidas e das pessoas com quem interagimos. Agora, o que me faz relacionar mais com o Êxodo é esse intervalo de tempo que deveríamos estar usando para nos organizar como grupo, para definir regras de convivência e vivência, seja com relação ao meio ambiente, às diferenças sociais, ou simplesmente com relação a nossas prioridades online e offline.

Essa quarentena, que incluirá a Páscoa e o Pessach, tem um sabor de travessia. Presos em casa, quantas coisas não pudemos trazer para cá, livros, objetos, consertos adiados? Como o pão ázimo feito às pressas, também nós estamos nos virando com os produtos e equipamentos que temos. A raiz amarga, que eu particularmente não consegui comprar, são as notícias diárias sobre o coronavírus e particularmente sobre as atitudes de nossos governantes, no Brasil ou lá fora. A ansiedade com relação ao futuro e uma vontade imensa de voltar ao Egito, quem de nós não sentiu? Voltar a um passado conhecido, habitual, que devemos rejeitar para preservar nossa saúde. Falta-nos, em nossa sociedade saturada pela comunicação global, líderes mosaicos. A maioria de nossos líderes se apresenta como burocratas insensíveis ou como Neros histriônicos. Falta a solidez exasperada de um Moisés, um Ben Gurion, um “vô Leo” que em cada família terá um nome distinto. Então o trabalho deverá ser feito por nós, em isolamento. Como na história do Êxodo, é preciso que o povo escolha entre alternativas sensatas e milagrentas, entre o norte das Tábuas da Lei e as superstições desagregadoras. E, pensando bem, talvez mesmo no deserto não estivesse claro a quem seguir: apenas a posteriori Moisés foi um grande líder. A cloroquina e o isolamento vertical são nomes novos para o bezerro de ouro que também nos encantou no passado.

A trégua de Primo Levi, a travessia de Max com seus felinos, o Êxodo do povo hebreu são momentos de perigo e oportunidade, de conflitos e de ação conjunta, de busca incerta. Entramos nela de um jeito e saímos de outro, às vezes mais juntos ao próximo, às vezes mais confiantes em nós. Cheios de medo, certamente, mas nem por isso incapazes de agradecer por essa impressionante oportunidade. Se haverá maná e uma terra prometida depois, é incerto. Como também era para os antigos hebreus.


Heloisa Pait, PhD pela New School for Social Research, é professora da UNESP e investiga a relação entre meios de comunicação e cultura democrática. Ela participa ativamente dos debates públicos nacionais e também escreve ficção.

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