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Cada um tem o que merece

Por Gabriel Teitelbaum
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Há pouco tempo, deparei-me com uma reportagem a respeito de manifestações de pessoas contrárias ao distanciamento social no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Ela mostrava o uso, em um cartaz, da frase Arbeit macht frei, escrita diretamente em alemão e endereçada ao governador do estado, J.B. Pritzker, que havia decretado confinamento e restrição de atividades econômicas até o final do mês de maio. O exemplo aqui é direto: o trabalho supostamente liberta, mesmo que a vida esteja em risco. 

Porém, é claro, não precisamos ir tão longe. Bem antes das eleições de 2018, aqui no Brasil, passamos por uma revolução nos serviços de transporte, entregas e trabalho, de forma geral. Ela se deveu, principalmente, à chegada dos aplicativos, que trouxeram a bandeira de liberdade ao trabalhador precarizado, que poderia, agora, “ser seu próprio chefe”, ou seja, definir seu horário de trabalho, não prestar satisfações a um patrão, definir suas folgas, etc. No início, os aplicativos ofereceram uma série de vantagens para os novos motoristas ou entregadores: bônus por número de corridas, remuneração diferenciada nos finais de semana, a chamada “tarifa dinâmica”, entre outras. Aos poucos, o número de trabalhadores foi aumentando, acompanhando também o desemprego no mercado formal, e as vantagens diminuindo. Lembro-me de conversas que tive com motoristas que me contavam que trabalhavam doze, catorze, quinze horas por dia, fazendo corridas das seis da manhã à meia noite, por exemplo. Também me vêm à cabeça registros fotográficos, como o de um entregador com o “mochilão baú” de uma empresa trabalhando com entregas em uma bicicleta de aluguel rotativo, oferecida por outra empresa; ou a foto de dois desses mesmos entregadores dormindo em uma praça utilizando os mochilões como apoio e proteção para suas cabeças. Obviamente que a bandeira de ser seu próprio chefe resultou em mais precarização: sem nenhuma espécie de garantia trabalhista, a liberdade preconizada se transformou em prisão. Outro motorista me contou, em uma dessas conversas que podem praticamente ser desabilitadas pelo aplicativo por preferência do usuário, que não via sua filha há alguns dias, pois quando chega em casa, ela já saiu para escola, e quando volta, ele já saiu para o trabalho. 

Eu dizia que não precisamos ir muito longe. Acompanhada dos aplicativos e dos avanços tecnológicos, a sociedade também clama por “liberdade”. Os startupeiros, os influencers, os youtubers, os freelas, assim como os ubers e ifoods, têm algo em comum, além dos estrangeirismos: não prestam satisfações a um superior. São livres para definirem o que fazem. Porém, existem pelo menos dois superiores a todos eles. Um nem tão disfarçado assim: o sistema econômico, que faz com que se aceite a ilusão de que ser o próprio chefe dará a oportunidade igual e meritocrática a todos, que podem chegar ao sonho da riqueza, do falso estatuto de que tudo comprar é tudo gozar e que isso é liberdade. O outro superior, colado ao anterior, fica um pouco mais disfarçado: chamemos de positividade. Aqui é preciso pensar um pouco, novamente, no vocabulário utilizado por muitos desses que citei acima: aqueles que são membros do “Five AM Club”, ou seja, que acordam cedo, pois “Deus ajuda, quem cedo madruga”, ou os que dizem que basta um pouco mais de esforço, um pouco mais de trabalho, porque “tudo é possível” ou que dizem que “o seu sucesso depende apenas de você” ou que dizem que é possível “estar integralmente aqui e agora”, basta um pouco de meditação e zás! “Sou capaz de tudo”, basta um pouco mais de... Será? Parece que o que está em jogo, aqui, é o tudo poder, o tudo ser possível, e esse é o conceito único de “liberdade”, como se ela se confundisse com a onipotência do consumo, obtida através do trabalho, que levaria a uma prometida completude do ser. Ou seja, cada um tem o que merece, e é recompensado de acordo com seu esforço. 

Do outro lado da moeda, está a dificuldade de se deparar com o que falta, com o que é inatingível ou inexplicável – o negativo. Impõe-se a necessidade de encontrar uma causa e uma solução, rápida e completa, para tudo o que nos atinge. Seja identificando culpados, seja acreditando em falsas promessas que individualizam a possibilidade de sucesso, seguimos buscando uma fórmula mágica para tirarmos da nossa frente aquilo que não podemos alcançar ou explicar, como se uma solução final fosse possível. Essa necessidade atinge também os tratamentos médicos e terapêuticos, em que se busca primeiro a identificação e a categorização do que causa sofrimento, e depois a medicalização e o apagamento dos sintomas, que provavelmente reaparecerão de outra forma ali na frente. Poder aceitar que, muitas vezes, há um vazio no lugar da causa do sofrimento, da falta, é aceitar que não se pode tudo. Mais do que isso, é permitir um trabalho que possa encontrar vias possíveis para lidar com essas faltas, já que tapar esse buraco é impossível. Poder perguntar, então, como, e não por que, poderia nos levar a pensar sobre a nossa forma de funcionar em sociedade, e, ao expor aquelas feridas que insistem em reabrir após serem medicadas ou cutucadas, enxergá-las, tomá-las como nossas, mesmo que seja impossível explicá-las sem furos, sem falta, sem negativo. 

Vamos chegando um pouco mais perto do que eu queria dizer e da nossa realidade distópica. Pouco antes das eleições que colocaram no poder o atual governo, de Jair Bolsonaro, o tema da economia (neo)liberal foi, aos poucos, tomando espaço na sociedade. Após o resultado, concentrou-se na figura de Paulo Guedes, defensor das ideias da Escola de Chicago e então novo ministro da Economia, a esperança de grande parte da população por mais liberdade econômica, mesmo que essa liberdade não fosse também destinada aos “costumes” e que não se soubesse exatamente quais eram aquelas ideias, já que poucos foram os espaços de debate e discussão naquele momento. Vieram as propostas de reformas, de privatização, de mais “liberdade” ao trabalhador nas negociações com os patrões. 

Além das propostas econômicas, vieram as fake news, a produção e a proliferação incessante de memes, o compartilhamento viral de mensagens de ódio nos grupos de whatsapp e os bots, ou robôs, no Twitter. Todas essas tecnologias de informação têm em comum tanto o imediatismo, a replicação rápida, quanto a defesa cega de uma verdade sobre outra, mesmo que elas não se baseiem em fatos verificáveis ou que sejam claras deturpações deles. Aqui aparece a necessidade de defesa de uma verdade, novamente, sem furos. Como se essa verdade pudesse responder integralmente ao que, às vezes, é impossível responder. Novamente em comparação aos tratamentos do sofrimento psíquico, é mais importante saber qual é o diagnóstico, a causa e a medicação do que se perguntar como o sofrimento se dá. É como se a quantidade de informação pudesse se sobrepor à qualidade: já que é impossível parar para pensar e analisar, é necessário solucionar, responder, descobrir, curar, tapar, substituir. Aqui, novamente, a liberdade - mas agora de expressão - vem acompanhada de uma prisão. Os algoritmos das redes sociais ajudam a formar as bolhas de informação, já que são treinados para dar a ver apenas aquilo que agrada, o que não mostra os furos ou o contraditório, e a replicação da informação em grupos de semelhantes ajuda a fechar ainda mais o cerco. É como se fosse necessário que a todo momento sejamos lembrados daquilo que acreditamos, porque aquela visão não pode falhar, mesmo que se baseie em fake news e que a todo momento dessubjetive outras pessoas, que defendem outra posição de verdade. 

Não podemos nos esquecer que saber e verdade não são idênticos, e isso não é tão difícil: basta falar. Quando falamos, não sabemos exatamente o que vamos dizer. Não temos domínio sobre o que vai se produzir naquele momento e estamos sujeitos a cometer lapsos. Na linguagem do meme, importa a rapidez, a completude do instantâneo e o compartilhamento rápido. É um movimento masturbatório de satisfação rápida da tensão que se alivia em riso; sem crítica, sem pensamento. Lembro-me, agora, de um vídeo que recebi em um grupo de whatsapp: uma adolescente, visivelmente embriagada, abraça e beija uma árvore, enquanto muitos outros adolescentes riem e gravam ou tiram fotos da situação. Nenhum deles, até o final do vídeo de pouco mais de um minuto, faz qualquer menção de ajudar a outra, apenas produz o meme, que logo viraliza. Na cena e no reenvio, importam mais o compartilhamento e o riso fáceis e individualizados do que a crítica e a alteridade. 

Antes de voltar ao tema econômico, é necessário fazer uma breve, mas nefasta lembrança. Em janeiro deste ano, apesar de já parecer um momento longínquo, o então secretário de cultura, Roberto Alvim, faz uso do vocabulário e da semiótica nazistas - notadamente do Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels - em um pronunciamento em que anunciava os vencedores do Prêmio Nacional das Artes. Defendia uma cultura “voltada para a maioria”, que valorizasse os aspectos nacionais e da “verdadeira cultura brasileira”. Logo em seguida à divulgação do discurso pelos meios oficiais, sucedeu-se uma breve defesa do secretário por figuras ligadas ao governo, como Eduardo Bolsonaro, que se baseava em comparações do nazismo com o comunismo, inclusive em número de vítimas. Privilegiava-se, então, a retórica, a defesa de uma verdade sobre outra, e não as vidas perdidas em ambos os regimes. Em breve retomarei esse ponto. 

Eis que, em meio à pandemia de Covid-19, a mesma que originou as manifestações americanas, nos vemos envolvidos pela disputa saúde versus economia. Poderíamos relembrar diversos momentos nessa disputa, desde o início do que antes era tido como uma doença que “mataria menos que H1N1” ou que, depois, “vai matar seis ou sete mil, mas não podemos parar por isso, porque se não vai morrer mais”. Mas eu queria retomar apenas um dos momentos mais recentes, e talvez pouco notado: a divulgação pela Secretária de Comunicação do governo de um material que diz: “O trabalho, a união e a verdade nos libertará (sic). Juntos, vamos seguir fazendo deste país uma grande nação”. O erro de concordância não pode ser mera coincidência. Seja ato falho, seja porque as palavras a seguir foram inseridas depois por alguém um pouco menos desavisado, o que vem primeiro é o trabalho, que concorda com libertará. E assim voltamos ao começo dessas reflexões apressadas. Nos Estados Unidos e no Brasil, o trabalho liberta? A que estamos dispostos por essa pretensa liberdade que, segundo o presidente, é “um bem muito maior até do que a própria vida”? 

É claro que os dois materiais, o cartaz e a peça publicitária, um mais diretamente que o outro, fazem referência à frase disposta não só em Auschwitz, mas também em outros campos de concentração do regime nazista. Alguns dizem que a frase era uma falsa promessa, puramente sádica. No entanto, outra versão diz que Rudolf Höss, comandante do campo de extermínio de Auschwitz, copiou-a do campo de Dachau por acreditar que o autossacrifício através do trabalho teria como destino alguma forma de libertação espiritual. Se formos um pouco mais adiante, veremos que não era somente essa frase que era utilizada nas entradas dos campos de concentração e extermínio nazistas. Em Buchenwald, por exemplo, a frase era Jedem das Seine, em tradução literal “cada um no seu canto” ou, em tradução idiomática, “cada um tem o que merece”. Uma falsa noção, descolada da conjuntura, de que cada um é definido e destinado a um fim devido a alguma pequena diferença, escolhida de acordo com os anseios e angústias de uma sociedade. O trabalho liberta e cada um tem o que merece. É só se esforçar mais um pouquinho, é só acordar mais cedo, é só reabrir o comércio e deixar que o mercado se regule. Claro, vamos ter algum dano colateral, mas patriotismo e prosperidade acima de tudo, doa a quem doer, morra quem morrer. E daí? 

Eu disse que voltaria ao episódio do ex-secretário Roberto Alvim. Parece que ali evidenciou-se algo que retornaria de outras formas em tempos ainda mais (vejam só...) catastróficos. Após o episódio, as discussões giraram em torno da comparação entre nazismo e comunismo, em que se pontuavam, como um ranking, qual dos regimes havia matado mais. Importavam os números de vítimas e os resultados. E, além disso, a palavra em sua forma concreta. Anteriormente, o presidente já havia trazido à tona a discussão sobre o nazismo ser “de esquerda” porque estava no nome: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Bom, no final das contas me parece que é mesmo uma questão de concretude e polissemia. Vivemos em um tempo em que a liberdade é única, o socialismo é único, o trabalho é único, o Brasil é único, e Deus acima de tudo. Não há espaço para a abertura nas palavras e nas vivências, e sabemos para onde isso pode levar. Basta que fique cada um em seu canto, afinal todo mundo tem o que merece: o trabalho liberta. Será?


Foto de Tiago Queiroz, do Estadão.


Gabriel Teitelbaum é psicólogo formado pela UFRGS e psicanalista em formação pela Sigmund Freud Associação Psicanalítica. Membro do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRGS.

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