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Jerusalém, cidade santa ou território político?

Por Gabriel Neistein Lowczyk
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Desde a antiguidade, Jerusalém é tida como lugar central nas representações do mundo conhecido, por onde se passa uma linha imaginária que divide Oriente e Ocidente. Dentro da tradição Judaica, os antigos sábios de Israel [1] diziam que o universo foi criado da mesma forma que uma criança é formada no útero de uma mulher. Tudo se desenvolve desde o umbigo, expandindo-se para todas as direções. Nesse paradigma, Israel está no centro do mundo; Jerusalém no meio de Israel; o Templo no núcleo de Jerusalém e o Santo dos Santos no âmago do Templo [2]. É para esse mesmo lugar, onde ficava a ‘mesquita mais distante’, que, segundo o Alcorão [3], o profeta Maomé foi levado em uma viagem noturna onde ascendeu aos céus. A reflexão que proponho a seguir trata de como essas visões mitológicas da terra podem ser interseccionadas com uma análise política desse espaço.

 Numa outra leitura do espaço, que olha para as fronteiras geográficas atuais, Jerusalém também assume centralidade. A cidade está no epicentro do conflito Israel-Palestina, que por sua vez está no centro de  muitas pautas e discussões políticas ao redor do globo. Nesse território, Jerusalém se coloca como um ponto de deformação das linhas de fronteira entre Israel e os territórios palestinos na Cisjordânia. Desde a segunda Intifada (2000) o governo israelense decidiu construir uma barreira física de separação, chamada por alguns palestinos de “muro do apartheid” e considerado por parte dos israelenses como “muro de segurança”, que circunda a cidade em seu perímetro oriental. No entanto, as divisões de Jerusalém não se limitam às barreiras físicas levantadas para fins de segurança. 

Jerusalém não deve ser compreendida como uma cidade unificada, sua urbanidade é múltipla e contraditória. É pertinente desenvolver uma análise pautada na existência de duas cidades paralelas, Jerusalém oriental e ocidental. Há muitos aspectos de contraste entre essas “duas cidades”, elas atendem distintos sistemas de educação, saúde e transporte público e se diferem em seus desenhos urbanos, densidade e tipologias arquitetônicas. De um lado, na cidade ocidental, é visível a presença de planejamento no traçado das ruas e eixos, fruto da legislação que limita o gabarito e aparência das fachadas - diretrizes criadas pelos britânicos para a parte central da cidade, e que expandiu-se, depois, para os bairros da moderna Jerusalém ocidental. Do outro lado, a cidade Palestina carece em planejamento, seu crescimento se dá de modo desordenado, sem regularidade no traçado das ruas e fachadas. Processos como a autoconstrução e a sobreposição de casas num mesmo terreno, conforme a expansão do núcleo familiar, se assemelham com as formas urbanas das periferias das grandes metrópoles brasileiras. 

Embora adjacentes, as ruas do lado ocidental e oriental de Jerusalém não se cruzam. O que se vê é a existência de duas realidades sem diálogo, que pouco se comunicam, criando uma atmosfera de temor que dá continuidade ao conflito israelo-palestino. Essas “duas cidades” se conjugam apenas nas muralhas da Cidade Velha, nesse espaço de aproximadamente um quilômetro quadrado (menor que o parque do Ibirapuera) as tensões se tornam muito mais presentes, as diferenças culturais são fortemente representadas nos quatro bairros, que são preenchidos com adereços turísticos, vielas tortuosas, sítios arqueológicos, procissões, praças e cafés com narguilé. Por sua vez, os bairros árabe e judeu se encontram na proximidade do Muro das Lamentações [Kotel Hamaaravi] que cerca a colina da Esplanada das Mesquitas/ Monte do Templo.

Os dois caminhos narrados aqui, um mitológico e outro político, nos levam para um mesmo ponto focal, onde já esteve o Templo e hoje está a Mesquita Domo da Rocha, lugar mais delicado no conflito israel-palestino. A segunda Intifada, que causou aproximadamente três mil mortes palestinas e mil israelenses, teve início quando o ex-primeiro ministro Ariel Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas/ Monte do Templo em setembro de 2000 [4]. A subida de Sharon na colina foi vista não apenas como a invasão de um território palestino, mas também de um espaço de santidade para os muçulmanos. Para um olhar moderno e secular se torna difícil entender que certos lugares na terra podem remeter à presença divina, e indevidamente o sentido daquele lugar é reduzido a um museu ou um lugar para apreciar a beleza arquitetônica.   

Estudar a questão de Jerusalém [divisível/ indivisível], apenas como uma partilha de territórios investigados de maneira científica e política, sem recorrer aos mitos e às noções de fé e pertencimento dos judeus e muçulmanos que lá habitam, torna-se extremamente nocivo. Para um entendimento da complexidade dessa questão, não devemos usar a arqueologia como argumento ideológico, sobre quem tem a ‘legitimidade histórica’ daquele espaço. A ciência não tem o direito de racionalizar o simbolismo daqueles lugares para o sujeito religioso. Para um palestino, o Ḥaram al-Šarīf (Nobre Santuário), representa a referência mais afetiva e próxima do espaço sagrado, e não Meca. Bem como para um judeu, existe algo em Israel, que não poderia ser encontrado em Uganda nem na Patagônia. Respeitar a pluralidade de significados que um mesmo espaço pode ter é empreender um caminho em direção ao diálogo.

No entanto, para os fundamentalistas, essa compreensão dialética da terra é inconcebível. O conflito se estabelece quando as leituras das lendas e das crenças são feitas de modo literal e paradigmático. Isso acontece quando fiéis muçulmanos cometem assassinatos para ‘defender al-Aqsa com sangue e fogo’. Ou mesmo quando a crença na vinda do Messias no Judaísmo deixa de ser vista como um processo espiritual da constante busca pela utopia, mas sim um fato que irá se materializar no campo da história, o que leva um terço da população israelense a acreditar que o Templo deve ser reconstruído [5] onde hoje está a Mesquita do Rochedo. 

As questões aqui trazidas não possuem um desfecho claro e sintético, mas apontam para a necessidade de estabelecer uma leitura complexa sobre Jerusalém e seus espaços políticos e sagrados, que fujam de visões fantasiosas e bordões simplistas. Que a tão aclamada busca pela ‘reconstrução de Jerusalém’ íntegra e pacífica [6] não seja apenas uma espera passiva, mas que tome forma ativa na construção de lugares capazes de acomodar uma diversidade de usos e sentidos.



Notas:

[1] Os sábios de Israel formam o conjunto de pensadores da época da Mishná e Talmud que viveram desde 250 a.e.c até 625 e.c

[2] Midrash Tanhuma, Kedoshim 10

[3] Alcorão 17:1

[4] https://www.youtube.com/watch?v=yEA4BgiECLY

[5] https://www.haaretz.com/.premium-rebuild-the-temple-30-say-yes-1.5294558

[6] A etimologia hebraica para o nome Jerusalém: ירושלים [Yerushalayim] remete a duas palavras, cujos sentidos se interligam, שלום [Shalom/ Paz]  e שלם [Shalem/ Completa; Íntegra].


Gabriel Neistein Lowczyk é judeu e paulista, cursa graduação em Arquitetura e Urbanismo na USP. A partir da imersão de um ano em Israel, iniciou uma pesquisa sobre os diversos significados do espaço na tradição e filosofia judaica. Também desenvolve estudos e práticas no campo das artes visuais e música.

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