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O judaísmo e as regras de vestimenta: uma abordagem de Fashion Law

Por Evane Beiguelman Kramer
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Como pesquisadora de Fashion Law, ou Direito da Moda, área do Direito que reflete sobre o conjunto jurídico-normativo aplicado ao mercado têxtil e da moda, o estudo das regras judaicas presentes nos textos bíblicos e talmúdicos associadas às vestimentas, são extremamente inspiradoras, pois caracterizam um ordenamento normativo específico para a vestimenta e, também, para os tecidos.

A proposta deste artigo é apresentar algumas regras judaicas sobre a vestimenta e tecidos que, a nossa ver, revelam um verdadeiro paradigma de Fashion Law.  Igualmente, o estudo das regras de vestir, revela a diversidade de linhas religiosas dentro do judaísmo (chassídica, conservadora, reformista) e, ainda, marca a origem sefaradi (espanhola, portuguesa e italiana e oriental/ do Oriente Médio e África do Norte) ou ashkenazi (ocidental/europeia, especialmente da Europa do Leste, Alemanha, Rússia, Polônia, França, Inglaterra) dos judeus, de acordo à forma dos trajes, não obstante, alguns elementos como o talit (xale ritual) ou tefilin (filactérios) sejam uníssonos em todas as diferentes comunidades judaicas. Vejamos:

1) Talit e Tsitsít

Durante as orações matutinas, os homens judeus vestem uma espécie de xale denominado Talit, com franjas pendentes em seus quatro cantos, bem como usam diariamente sob as suas camisas, um pequeno xale (de quatro cantos) com franjas.  

O regramento da obrigação de usar o xale com franjas denominado Talit e o pequeno xale (de quatro cantos) com franjas sob a camisa masculina (Tsitsit), encontra-se previsto na Torá, com a obrigação que todas as vestimentas de “quatro cantos” tenham estas franjas: 

“Franjas farás para ti e as porás nos quatro cantos de tua vestimenta com que te cobrires.» (Deuteronômio 22:12)

“Que façam para eles tzitzit (franjas) sobre as bordas das suas vestes, pelas suas gerações e porão sobre os tzitzit da borda um cordão azul celeste. E será para vós por tzitzit e vereis e lembrareis todos os mandamentos de Deus e os cumprireis e não errareis indo atrás do vosso coração e atrás dos vossos olhos, atrás dos quais vós andais errando; para que vos lembreis e cumprais todos os Meus mandamentos e sejais santos para com vosso Deus.» (Números 15:37 - 41) 

               

O preceito da vestimenta com franjas tem o propósito de associá-lo à consciência: vestimentas de quatro cantos são usadas como lembretes das obrigações, como se lê em Números 15:38-41 “(...) E será para vós por tzitzit e vereis e lembrareis todos os mandamentos de Deus e os cumprireis (...)”.

2) Tefilín

Dentre os itens principais da oração encontram-se os filactérios, denominados Tefilín, que consistem em um par de caixas pretas de couro com tiras de couro amarradas, uma sobre o braço e a outra sobre a cabeça, as quais são usadas apenas pelos homens durante as orações. 

Apesar de não se enquadrarem no conceito de vestimenta, pendendo mais para o conceito de acessórios, estas caixas contêm pequenos pergaminhos em seu interior, onde está escrito o Shemá (“Escuta, ó Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um!”) e outros versículos bíblicos. Os filactérios ou Tefilín não são conhecidos fora do judaísmo e as regras de sua utilização também estão disciplinadas na Torá: 

“E os atarás como sinal na tua mão, e serão por frontais entre teus olhos”. (Deuteronômio 6:8) 

  


A tela acima, de  Marc Chagall, intitulada “The Praying Jew (Rabbi of Vitebsk)”, em estilo cubista, de 1914, é parte do acervo permanente do Art Institute of Chicago e  retrata,  com exatidão, a vestimenta masculina dos homens em oração, com tefilin (filacterios) na cabeça e no braço, perto do coração, além do talit (chale ritual, com franjas).

A Torá Oral (conhecida por Talmud) completa os detalhes das inscrições, as dimensões e os horários para usar o Tefilín.

Aqui, novamente, na tradição judaica, a peça tem a funcionalidade de despertar a consciência, mantendo os judeus atentos às suas obrigações religiosas e morais. Tanto é que os homens começam a pôr Tefilín no Bar Mitsvá (símbolo da passagem para a idade adulta) e usam-nos todos os dias da semana, exceto nos sábados e feriados religiosos. 

3) Kipá

A kipá é outro adereço masculino, usado pelos homens judeus, conhecido, também por solidéu [1].

Cobrir a cabeça expressa respeito e consciência que sempre há algo acima do homem. Esta obrigação não provém de nenhuma injunção bíblica, é um sinal de reverência a D'us (Tratado Shabat, 156b). O Talmud registra que um homem não deve andar mais de sete passos com a cabeça descoberta, "pois a Presença Divina paira sempre sobre a cabeça" (Tratados Shabat, 118b e Kidushin, 31a).

O estilo da Kipá é uma questão de gosto e, também, de identidade. É um dos adereços que marca a diversidade de comunidades, dependendo do grupo e do país de origem.

Nos Estados Unidos e Israel, os judeus tradicionais usam Kipót de uma só cor, os de tendência sionista usam um solidéu tricotado preso ao cabelo com um grampo ou clips,  estudantes usam Kipót grandes de veludo; os judeus de origem da Europa Oriental usam as pretas com chapéus por cima; meninos pequenos usam  kipot coloridas. Os judeus do Oriente Médio usam kipot semelhantes aos chapéus usados pelos árabes e os rabinos de origem libanesa, síria, iraquiana, iraniana e iemenita usam chapéus semelhante ao qalansuwa, parecido com um fez, ou ainda tarbush cônico, em feltro vermelho ou vinho, estruturado para manter o formato.

   

4) Regras gerais sobre vestimentas e as diferenças entre as comunidades oriental e ocidental:

Na Torá há, ainda, algumas leis sobre o tipo de vestimentas que os judeus devem, ou não, usar. Um dos princípios básicos é que os homens são proibidos de usar roupas femininas, assim como as mulheres de se vestir como homem.

Destaque-se, ainda, as diferenças entre as vestimentas dos judeus orientais (sefaradim) e ocidentais (ashkenazim). 

As comunidades judaicas orientais, especialmente do Marrocos, são as que possuem os figurinos mais variados.  Os trajes festivos se caracterizam pelo uso de veludos, brocados e sedas. Percebe-se forte influência espanhola, principalmente no vestido usado no casamento por grande parte das noivas marroquinas, chamado de El Gran Vestido, ou pelo seu nome árabe, El-keswa El-kebira. Rico e elaborado, composto por uma saia comprida de veludo e bordada com fios de ouro, corpete em veludo da mesma cor da saia, mangas bufantes e um cinturão trabalhado em fios e pedras. Na cabeça, a noiva usa turbante de lenços coloridos, tiaras e até coroas. Nas três opções de adereços usados sobre a cabeça, a noiva leva um véu para cobrir para que cobrir o seu rosto durante a cerimônia de casamento. 

Já os judeus ortodoxos originários da Europa Ocidental (ashkenazim) costumam vestir-se com roupas pretas ou escuras, chapéu de pele, chamado shtreimel, usados nas festas e dias santos, casacos pretos fechados na lateral (chamados bekeshe) e meias brancas grossas  e altas. ashkenazim é tzniut, que significa recato.


As mulheres ortodoxas de origem europeia usam vestidos sem decotes, comprimento abaixo dos joelhos e com meia manga ou mangas compridas e a cabeça coberta por lenços ou perucas. O preceito de como se vestir aplicado à forma de vestir dos judeus ortodoxos.

5) Sha’atnez

Existe uma injunção bíblica contra a mistura de linho e lã na fabricação e uso de roupas. Essencialmente, Sha’atnez é uma das leis para as quais não é fornecida razão lógica.

O Talmud oferece algumas interpretações sobre a regra que proíbe a mistura de lã e linho na fabricação de tecidos. Uma delas é relacionada à história de Caim e Abel e às respectivas oferendas que levaram a D'us. O primeiro era agricultor e levou plantas que dão o linho, enquanto Abel, que era pastor, levou ovelhas, de cujo pelo se obtém a lã. Segundo a Cabala, a mística judaica, assim como estes dois filhos de Adão representavam forças espirituais opostas, que devem ser mantidas separadas, suas oferendas também não se devem mesclar.

Como em outras regras da tradição judaica, Sha’atnez é uma das proibições acerca da mistura de elementos, a exemplo da regra que veda seja o campo arado com uma vaca e um jumento juntos ou a conhecida regra de alimentação kosher ,em que não se misturam alimentos de carne com alimentos à base de leite.

6) Conclusão

Pode-se deduzir a importância conferida pelo judaísmo às vestimentas pela quantidade de regras que disciplinam o tema. Ainda, a regulação da forma de vestir-se tem a finalidade de reafirmar as posições comunitárias através da afirmação de que um judeu deve vestir-se de acordo com suas posses, mas deve alimentar-se abaixo das mesmas. Ademais, ensina a tradição judaica que "A glória de D'us é o homem e a glória do homem é sua vestimenta" (Derech Eretz).

NOTAS: 

[1] Há mulheres, desde a época bíblica, que cobrem a cabeça em público após o casamento, em virtude de uma regra que não é permitido a uma mulher casada mostrar seus cabelos, a não ser para o marido. O tipo de véu ou chapéu variou de acordo com a época e a sociedade. Hoje, por exemplo, há mulheres que cobrem o cabelo com chapéus e outras, com belas perucas.



Evane Beiguelman Kramer é doutora em Direito Processual Civil pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Mestre em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi Chefe de Gabinete e Secretária Adjunta da Justiça do Estado de São Paulo entre 2005-2006. Advogada do Dal Pozzo especialista em Contencioso de Direito Público. Professora de Direito Processual Civil e Prática Jurídica na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisadora de Fashion Law. Foi membro da Comissão de Gestão do Judiciário na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo. Membro do Instituto de Advogados de São Paulo (IASP).

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