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A ilegitimidade em favor do conflito

Por Eduardo Cukierkorn
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Muito se fala sobre a ilegitimidade do Estado de Israel. Para uns porque houve a destruição do sonho nacionalista da Palestina, para outros, porque a construção de Israel nada mais foi o que a extensão do imperialismo dos séculos XIX e XX no Oriente Médio. A outra narrativa iria o contrário: o Estado de Israel é legítimo, seja porque foi construído em territórios não utilizados, por um grupo sionista diverso, seja por causa da Shoá, seja pela doação por Deus o período bíblico.

Para melhor discutir o tema, é importante entender que Estado-Nação e Nacionalismo são conceitos criados. Uma estrutura abstrata que é ensinada a todos os participantes, reunidos por um sentimento comum - o nacionalismo. Este pode ser forjado de diversas formas, como a criação de identidade interna pela formação de inimigos externos à pátria, como fez Otto Von Bismarck, ou então pela uniformização da cultura, da memória e do idioma pela educação. Esta, por exemplo, foi a forma usada pela corrente trabalhista do Sionismo: identificação comum pelo hebraico, construção de uma narrativa predominante sobre a formação do Estado e a formação de uma cultura tipicamente israelense. Ou seja, criar características que distinguissem a nova pátria dos imigrantes de suas antigas e criar um aspecto único que identificasse todos como iguais. O conceito de identidade palestina, contudo, difere um pouco dos anteriores. Embora haja discrepância na literatura se sua gênese ocorre na desagregação do Império Turco Otomano ou durante a década de 1920, a Al AhNakba fortalece e impulsiona a criação da identidade palestina. A consolidação de Israel como Estado-Nação e as expulsões consequentes da guerra de 1948-1949 criam uma identidade comum aos palestinos.

Como vimos, o pensamento nacionalista tanto se baseia em criar uma uniformidade, que seu extremismo pauta-se na restrição do que é nacional, acabando por distinguir os diferentes. Dessa mesma forma, a legitimidade é criada pela História. A invasão muçulmana na Península Ibérica durou quase 800 anos, mesmo assim, o movimento de expulsão comandada pelos cristãos foi denominado Reconquista. Nem o tempo e nem as influências mouras foram suficientes para legitimar o antigo domínio. Afinal, em tempos de Cruzadas, tal legitimidade seria uma cisão de pensamento de época.

No final, o que quero demonstrar com tudo isso? Que a deslegitimação do outro faz parte da luta nacionalista entre Israel e Palestina. Isso porque há grupos que se legitimam pela exclusão do outro, não à toa a cada bomba jogada pelo Hamas e correspondida pelo Likud, os dois saem ganhando. O problema de ilegitimar o outro é a negação do seu processo histórico e sua constituição social. Com o ilegítimo não se dialoga, não se fazer acordos. O processo de ilegitimidade é político.

A verdadeira paz é realizada entre iguais, de forma que se precisa de paridade e equivalência, não submissão ou inequidade. É preciso aceitar a existência do outro para que haja diálogo. Nesse sentido, a campanha de ilegitimidade nada mais faz do que perpetuar o conflito. Por fim, a quem serve o embate?


Eduardo Cukierkorn é estudante de medicina, ex-boguer (ex-integrante) do movimento juvenil Chazit Hanoar e coordenador de assuntos acadêmicos do Centro Acadêmico Carlos Chagas da FM-UFRJ.

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