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As agruras (e as belezas) ignoradas de Jerusalém

Por Daniela Kresch
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TEL AVIV – Quando a violência entre fiéis muçulmanos e forças de segurança de Israel explode na Cidade Velha de Jerusalém, coração do conflito religioso e territorial entre palestinos e israelenses, câmeras de TV do mundo todo apontam para o lugar. As agências de notícias buscam imagens fortes de tumultos para vendê-las aos principais meios de comunicação do mundo. As imagens, tanto fotos quanto vídeos, correm o mundo e líderes dos quatro cantos do planeta se manifestam, preocupados com o que chamam de “escalada da violência”.

 

Os confrontos são realmente preocupantes. Todo e qualquer distúrbio no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas) é perturbante e assustador. O local é considerado sagrado há milênios, principalmente depois que o Pentateuco compilado pelos judeus exilados na Babilônia (a Torá), por volta de 500 A.C., contou a história da construção, no Monte Sião, do Templo Judaico, “a morada de Deus na Terra”, pelo rei Salomão.

 

Com advento de Jesus Cristo, no século I, Jerusalém passou a ser sagrada para o Cristianismo. No século VII, foi a vez do Islã adotar a cidade como parte de seu panteão de locais sagrados. As Cruzadas dos século XII a XIV elevaram ainda mais Jerusalém ao status de cidade disputada. Talvez a cidade mais disputada do mundo.

 

Mas, apesar da rivalidade milenar entre as religiões e da atualidade ainda turbulenta no local onde ficavam os Templos de Salomão e Herodes, e onde ficam, hoje, o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa, há, na Jerusalém de 2017, agruras ignoradas, que passam desapercebidas para agências de notícias internacionais, para comunidades judaicas pelo mundo e, às vezes, até mesmo para os próprios israelenses (pelo menos os que não moram na cidade).

 

Para quem vive em Jerusalém, essas agruras são ainda mais sentidas no dia a dia, no cotidiano da vida. Algumas são chateações mundanas, que não parecem ser compatíveis com a santidadade que a palavra “Jerusalém” evoca. Outras são menos mundanas no sentido de “secular”, mas ainda assim tão ou mais irritantes e preocupantes do que os distúrbios no Monte do Templo.

 

“Quem espera uma cidade pristina, maravilhosa, angélica, feita de mármore, com torres douradas subindo até o céu, de onde Deus, com sua barba branca, ilumina quem está embaixo, irá  enfrentar um baque. A cidade é, na verdade, raivosa, poeirenta, barulhenta e tensa”, escreveu o historiador Simon Sebag Montefiore no livro “Jerusalém, a Biografia”.

 

Jerusalém é a cidade mais pobre de Israel e, como tal, sofre com problemas sócio-econômicos. Há mais pobreza (mesmo que não a miséria que conhecemos no Brasil), mais diferença entre ricos e pobres, mais aglomerações de residências, menos empregos com altos salários, menos oportunidades. Não à toa,  milhares deixam a cidade anualmente em direção a cidades como Tel Aviv, a capital da “Startup Nation”.

 

As questões sócio-econômicas têm base no fato de que dois terços da população de 850 mil pessoas da cidade pertencem aos grupos sociais menos abastados de Israel: os ultraortodoxos (os haredim) e os árabes. Os motivos são muitos, como número de filhos e níveis educacionais e profissionais mais baixos. 

 

Nem tudo, aliás, tem a ver com o conflito entre israelenses e palestinos. Mas a imprensa mundial parece só se interessar pelos dissabores dos cerca de 350 mil palestinos da cidade. Aí entra o tema do conflito entre árabes e judeus, do qual se fala muito, mas se explica pouco.

 

Quando se trata dos ultraortodoxos, no entanto, o assunto é tratado pelo mundo como algo “exótico”, um tema apenas interno e um tanto esotérico. Para os moradores de Jerusalém, no entanto, trata-se de uma questão complicada diária. Os cerca de 250 mil haredim nem sempre vivem em harmonia com os cerca de 250 mil seculares da cidade. Um dos exemplos é a tensão anual em torno da Parada Gay de Jerusalém.

 

Também há manifestações cíclicas contra abertura de restaurantes, cinemas e negócios em geral durante o “shabat” (o sábado judaico). Publicitários também sabem que não podem colocar mulheres em cartazes nas ruas (nem mesmo personagens de gibis). E bairros como Meá Shearim se tornam cada vez mais complicados para passagem de seculares e de soldados. Há ultraortodoxos que não só recusam o alistamento militar obrigatório de Israel como abertamente hostilizam soldados. 

 

Todas essas tensões transformam a vida em Jerusalém num desafio. Mas é claro que há, na cidade, lados maravilhosos e que atraem 2 milhões de turistas por ano. A vista, os locais milenares e sagrados, os museus, a diversidade dos moradores, a babel de línguas, os mercados como Mahane Yehuda. A convivência, apesar de tudo, é, em geral, pacífica. Os serviços públicos funcionam. Os parques são lindos, os eventos de cultura, maravilhosos. Há até mesmo um pólo da alta tecnologia, sem contar uma vida noturna latente.

 

E tudo isso – bem como as tensões que não têm a ver com o conflito entre israelenses e palestinos – parece muitas vezes invisível às câmeras das agências de notícias. 

A real Jerusalém de 2017 é encoberta por uma bruma aos olhos do mundo, para o qual é mais fácil vê-la como uma cidade onde só o conflito com os palestinos tem relevância. Mas a cidade tão sagrada para tantos é mais do que isso. Muito mais.


Daniela Kresch é correspondente internacional no Oriente Médio desde 2003. Baseada em Israel, realiza atualmente coberturas jornalísticas para a rede de TV GloboNews, o jornal Folha de S. Paulo, a Rádio França Internacional em português (RFI) e a BBC Brasil.

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