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Não podemos nos calar sobre Sheikh Jarrah

Por Daniela Amon
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Bairro de Sheikh Jarrah. Ao fundo, o centro da cidade de Jerusalém. Foto: David Shankbone.

Na última semana, os conflitos entre Palestinos, as forças Israelenses e extremistas judeus pró-ocupação intensificaram-se novamente, culminando em uma série de confrontos que ocasionaram mais de centenas de feridos entre os manifestantes, dezenas entre os soldados e dezenas de detidos. As manifestações, que vêm ocorrendo todas as noites — respeitando as regras do Ramadã — desde o dia 03/05, contestam a intimação de despejo de quatro famílias palestinas no bairro de Sheikh Jarrah, no distrito oriental, cuja decisão na Suprema Corte será tomada na próxima segunda-feira. O bairro, que abriga palestinos desde a década de 1950, quando ainda estava sob domínio jordaniano, vem sendo alvo de disputa entre seus moradores e nacionalistas israelenses que reivindicam a região, evocando o nome de Shimon Hatzadik, sumo-sacerdote do século III A.eC. cujo túmulo, localizado em Sheikh Jarrah, recebe peregrinos anualmente. 

A lei israelense, contrariando a ONU, que define o despejo como crime de guerra, permite, em algumas circunstâncias, o deslocamento compulsório de famílias. No caso de Sheikh Jarrah, os extremistas judeus apoiam-se no argumento da legalidade de sua reivindicação, alegando que, como judeus viviam ali no período anterior a 1948, são eles os detentores dos direitos sobre aquela terra. Em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, as Colinas do Golan, o Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental passaram ao controle do Estado de Israel. Com a unificação de Jerusalém, famílias palestinas que haviam passado do lado Ocidental ao Oriental em 1948 passaram a reivindicar seu direito de retorno às suas casas, porém sem sucesso. No entanto, o mesmo não se aplica ao caso inverso, ou seja, o de judeus que abandonaram Jerusalém Oriental quando esta passou à jurisdição jordaniana. Este detalhe da lei israelense é emblemático, pois prova uma discrepância entre o cumprimento dos direitos de judeus e palestinos, e nos leva a nos interrogarmos se o caso não se enquadraria em uma tentativa de limpeza étnica da região. Vale lembrar que Jerusalém Oriental é um ponto chave do conflito Israel-Palestina, com setores de ambos os lados clamando-a como sua capital.

É preciso, portanto, que situemos o caso não como algo isolado, mas como parte integrante de um contexto geopolítico complexo e como resultado de uma série de acontecimentos históricos. A expulsão de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah, substituindo-as por colonos judeus, alteraria a demografia da região, instaurando um novo ponto de ocupação israelense. Nós, como judeus que acreditam na necessidade de um diálogo horizontal entre dois Estados soberanos para que haja paz, não podemos deixar de repudiar a ação das forças armadas israelenses em Sheikh Jarrah e de nos solidarizarmos com as famílias vítimas desta situação.


Daniela Amon é graduanda em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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