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O inédito crescimento da direita radical no sistema partidário de Israel

Por Coluna do Niej
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No dia 17 de março de 2015, o Likud de Benjamin Netanyahu foi o partido mais votado nas eleições legislativas em Israel. Naquela mesma data, o chefe do partido conservador se dirigiu aos seus eleitores comemorando a vitória e declarando seu comprometimento tanto com cidadãos judeus quanto com cidadãos não judeus no país. Apenas dez horas antes, contudo, Netanyahu havia gravado um vídeo amador, no qual alegava que a direita estava sendo atacada e que uma coalizão de forças estrangeiras e domésticas estava prestes a vencer as eleições. Segundo o então candidato, um grupo estaria transportando milhares de eleitores árabes para as urnas com o único objetivo de removê-lo do poder. Dessa forma, o atual primeiro-ministro pediu a seus partidários que se mobilizassem e votassem em seu partido, a fim de combater o que seria um suposto ataque antissionista.

Naquele vídeo, Netanyahu parecia mais um candidato insurgente que o primeiro-ministro em exercício. Ainda assim, os resultados oficiais das eleições viriam a revelar a magnitude impressionante da vitória de seu partido. Para além do discurso incendiário do então candidato do Likud, um olhar atento da dinâmica partidária de Israel nos últimos anos revela que a postura de Netanyahu foi consequência de mudanças mais dramáticas e sistêmicas no país. Ideias e práticas que no passado caracterizaram a direita radical foram gradualmente sendo incorporadas em amplos segmentos do cenário político israelense.

Além do caso já citado, em julho de 2011 partidos uniram esforços para aprovar uma legislação que prevê a imposição de sanções financeiras contra cidadãos israelenses que publicamente apoiassem qualquer tipo de boicote a Israel. Outra iniciativa controversa, a Lei Nacional, enfatizou ainda mais a nacionalidade judaica do Estado através de várias práticas formais. Além disso, uma nova legislação que recentemente ganhou o apoio do gabinete de Netanyahu promoveria restrições mais fortes e punições mais severas para estabelecimentos comerciais que funcionasse durante os sábados.

O livro recém-lançado pela Universidade de Oxford sobre a direita radical tem um capítulo específico sobre Israel que analisa a natureza e o impacto dessas transformações. Nele, a direita radical é descrita como a combinação de três elementos: nativismo, autoritarismo e populismo. No caso israelense, o nativismo se baseia no direito absoluto e exclusivo dos judeus sobre a Grande Israel ou no controle dos territórios ocupados em 1967. Já o autoritarismo representaria a subordinação total da sociedade israelense à autoridade estatal ou ao líder e a busca da “lei e ordem” no seu sentido mais estrito. Por último, o populismo sustenta que elites de esquerda teriam usado seu controle das instituições sociais para barrar a defesa da natureza judaica particularista do Estado, além da adoção de medidas mais rígidas de segurança e a contínua implementação da ideia de Grande Israel.

Tendo surgido em sua forma moderna durante a Guerra dos Seis Dias (1967), a direita radical em Israel se notabilizou por reivindicar o controle permanente sobre os territórios ocupados, diferentemente de outros partidos, que viam a ocupação como condição temporária para promover uma resolução do conflito palestino-israelense. Desde a década de 1980, porém, esse segmento se expandiu e seus discursos foram gradualmente sendo incorporados por líderes e partidos políticos mais tradicionais do sistema político israelense. Dessa forma, a direita radical, mais do que em qualquer época do passado, deslocou seu centro de atividade da marginalidade das ruas para as instituições executivas e legislativas em Israel.

Pesquisa e texto: Bruno Casares Almeida.  

A imagem é um print do vídeo ao qual o artigo se refere.


A coluna semanal do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ trata de episódios da história de Israel, da Palestina e do Oriente Médio a partir de uma imagem.

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