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Banalização da Shoá e apoio a Israel convivendo lado a lado?

Por Celso Zilbovicius
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Nos últimos meses assistimos, no Brasil, uma profusão de mensagens vindas de personagens do atual governo federal que utilizavam imagens ou declarações alusivas ao nazismo ou lembrando eventos ligado à Shoá (palavra hebraica que significa tragédia, em substituição ao termo holocausto). Desde a simulação de um discurso de Goebbels até a lembrança da Noite dos Cristais, o bolsonarismo parece utilizar o regime de Adolf Hitler de forma até fetichista em sua estratégia de marketing político. Muitas declarações, manifestos e debates foram feitos na imprensa, nas redes sociais e por organizações da sociedade civil pra denunciar a banalização da história e mostrar um descontentamento por parte da sociedade brasileira na utilização dessas alusões, incluindo aqui a comunidade judaica e parte de sua liderança. 

Neste momento, no Brasil, acreditamos que estão em curso fenômenos que nos fazem refletir acerca da semelhança do atual governo de Bolsonaro com regimes totalitários, e daí a utilização, por membros de seu gabinete ministerial, muitos destes ligados ao chamado “comitê ideológico”, de referências ligadas ao nazismo. O primeiro fenômeno diz respeito ao que a filósofa Hannah Arendt descreveu em sua magnífica obra “Origens do totalitarismo”, quando afirma que: “O possuir poder significa o confronto direto com a realidade, e o totalitarismo no poder procura constantemente evitar esse confronto, mantendo o seu desprezo pelos fatos e impondo a rígida observância das normas do mundo fictício que criou” (p.442)*.

Em plena crise de pandemia da COVID 19, quando já contamos os mortos no Brasil na casa dos 145 mil e já ultrapassamos 4,5 milhões de casos, assistimos um verdadeiro distanciamento da realidade com omissão e negação do chefe do executivo brasileiro, como se a atual realidade vivida no país não lhe servisse para seu propósito de governança. Além das trocas de ministros da saúde que saíram por discordarem das tentativas de imposições de ações e discursos contrários às evidencias científicas acerca de métodos de prevenção e contenção da transmissão do novo coronavírus. Aí sim podemos ver uma manipulação da realidade misturada a uma banalização proposital da pandemia e da morte de cidadãos, simbolizada na pergunta “E daí?” quando a imprensa questionou o presidente acerca das mortes ou quando este se referiu à nova doença como uma mera “gripezinha”. Na tentativa de combater ferozmente o isolamento social, alguns de seus ministros, fiéis vassalos da cartilha bolsonarista, fizeram declarações infames como a do atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo quando comparou o isolamento social para combater a Covid-19 aos campos de concentração nazistas. Não há dúvida que estes recursos não são meros artifícios de retórica e sim fruto de uma estrutura definida e autoritária para marcar posições políticas do governo.

Hoje não resta dúvida que a memória coletiva da Shoá adquiriu um componente universal de legado contra o totalitarismo e a discriminação, com um significado muito importante na vida do povo judeu no pós-guerra e que se perpetua nas gerações posteriores. O problema se encontra quando, mais do que uma mera banalização desta memória coletiva, ocorre, nestas alusões repetitivas sobre nazismo e a Shoá, uma ressignificação desta memória para fins ideológicos de comunicação. O exemplo disto pode ser visto, antes de mais nada, no próprio slogan do governo Bolsonaro, o já divulgado “Brasil Acima de tudo e Deus acima de todos” que apresenta  muita semelhança ao slogan do regime nazista que utilizava a 1ª parte do hino alemão com a frase “Deutschland über alles” (a Alemanha acima de tudo) se aproximando da memória do nacionalismo totalitário para refletir seu ideário nacionalista, agora temperado de verde amarelo. 

Como fosse um processo considerado normal, governos cujas ações muitas vezes se assemelham a históricos regimes autoritários que tiveram o antissemitismo presente em seus princípios ideológicos, adotam posturas de um apoio incondicional ao atual governo do Estado de Israel , muitas vezes apoio este para se descolar de uma pecha nazista.

Seguindo os exemplos da ressignificação proposital da memória coletiva, podemos lembrar da fala do ex secretário especial da Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, ao citar trechos de discursos de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda Nazista de Adolf Hitler, ao se referir de suas intenções de ações na cultura brasileira de sua gestão. Segundo o site G1, o senhor Alvim teria dito a seus assessores que conhecia a origem do discurso e que teria se inspirado nele.

Ora, seria muito difícil dizer, de forma simplista, que trata-se de uma mera banalização da memória ou seja, torná-la algo comum ou  trivial. A frequência da banalização e perversão do nazismo evidencia uma intencionalidade clara de demarcar uma linha política em curso que, sem dúvida, se aproxima de um autoritarismo de direita cuja inspiração remete ao regime hitleriano ou, mesmo na era contemporânea, às estratégias nacionalistas de Victor Orban na Hungria ou mesmo de Donald Trump, nos Estado Unidos, que durante o primeiro debate com John Biden para as eleições nos EUA, mesmo com seu “fervoroso apoio a Israel”, se esquivou de criticar os supremacistas brancos, muitos dos quais têm agendas abertamente neonazistas. No mesmo debate, o atual presidente americano afirmou que, caso fosse necessário, pediria à famosa milícia “Proud Boys” que se mantivessem em “stand by” em caso de demonstrações racistas ou anti-Trump. Recentemente, o fundador desta milícia, Gavin McInnes, gravou um vídeo em que mostrava as “10 coisas que eu detesto nos judeus”, além de defender os negadores da Shoá e afirmar que estava se tornando um antissemita.

O legado da Shoá deve servir como um alerta permanente contra as tentativas de construir realidades fictícias com ressignificado da memória coletiva. Já é evidente que o suposto “apoio” a Israel por parte de governos como de Jair Bolsonaro e Donald Trump convivem muito bem com comportamentos xenófobos, racistas ou mesmo antissemitas. Apoiar uma Israel imaginária para fins escusos não pode ser confundido com apoio ou proteção aos judeus.

Parafraseando Elie Wiesel, sobrevivente da Shoá e ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1986: “Permitir que esta memória seja reconstruída para servir de instrumento de propaganda nacionalista e perniciosa é muito mais do que banalizar a morte das vítimas, é assassiná-las novamente”.



*ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


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