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Não é apenas o nome de uma rua, e extremismo não cabe no judaísmo

Por Camila Crespin
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Letreiro e graffiti designando os lados femininos e masculinos da escada, além do grafite dizendo: "A passagem para os indecentes é proibida." (Alisa Coleman)

“É uma bela cidade cheia de judeus religiosos, ultraortodoxos (Haredi), seculares e tradicionais, ou era quando eu cheguei. Mas logo a beleza da cidade foi manchada pelo extremismo, por aqueles que externamente compartilhavam minha religião, mas de alguma forma começaram a adorar a “modéstia” acima de tudo, a tal ponto que as mulheres quase foram convidadas a desaparecer da esfera pública.” 

Foi o que a Shoshanna Keats Jaskoll, moradora há treze anos da cidade de Beit Shemesh, escreveu como parte do seu manifesto na página da Chochmat Nashim, organização que trabalha para ampliar a voz de mulheres religiosas e conter normas sociais que as excluem e alimentem extremismos em comunidades judaicas globalmente. 

Beit Shemesh é uma das cidades que mais cresceu em Israel na última década e abrange em grande parte o setor ultra-ortodoxo judaico (Haredi). Nos últimos anos, a ala extremista ultra-ortodoxa tem produzido uma instância de desaparecimento social das mulheres.

Em audiência no Knesset (Parlamento israelense) frente ao comitê de Status da Mulher, Shoshanna manifestou sua indignação quanto a cidade ter decidido excluir o primeiro nome de heroínas e heróis (para promover um falso senso de igualdade) na denominação das ruas do novo bairro Neve Shamir, único espaço a ser destinado para o público geral e não somente Haredi na região.

Mas a decisão por colocar nas placas somente ‘Frank’ (sem o Anne), ‘Aaronsohn’ (sem o Sarah) e ‘Szenes’ (sem o Hannah) foi apenas o estopim de um prolongado processo de exclusão das mulheres. Processo esse que as removeu de propagandas e posters pela cidade, as pediu para sentar no fundo do ônibus e se estende a retaliações físicas - caso em que foram atacadas por pedras por não estarem vestidas em conformidade, segundo Shoshanna. E esses não são casos particulares. No livro ‘A mulher invisível’, Estee Rieder-Indursky, nascida e criada em uma comunidade Haredi de Tel Aviv, aborda quanto ao apagamento constante das mulheres nessas comunidades.

Mas como devemos proceder quando o extremismo bate a porta de nossa religião? Até que ponto somos capazes de discernir nossa pluralidade religiosa de um possível radicalismo e a que passo estamos da construção de diálogo intra e entre nossas comunidades?

Se o extremismo passou a tomar conta das políticas públicas e sociais que afetam a vida de mulheres a quem são negadas a possibilidade de conviver em paz dentro de sua comunidade, o manifesto de Shoshanna não é e não poderá ser somente sobre o nome de uma rua. A voz de Shoshanna é um chamado de alerta para um extremismo que as enclausura em uma sociedade que não as tolera enquanto mulheres capazes de protagonismo e que as coloca à margem da vida social. Seu manifesto é a vontade de várias e é preciso conceder a elas atenção e diálogo por uma sociedade que as posicione em patamar de igualdade respeitando suas singularidades religiosas. 

Enquanto a exclusão dos nomes femininos se tratar apenas sobre uma questão de denominação das ruas de Neve Shamir, estaremos dando espaço de crescimento para o extremismo dentro de nossas comunidades. E considerar o caso algo somente problemático para a comunidade Haredi na qual Shoshanna vive, é ignorar nossa própria responsabilidade enquanto comunidades tolerantes e plurais, pois o extremismo não cabe no judaísmo, seja qual for sua linhagem, e é preciso a ele impedir terreno fértil para expansão.

Dessa forma, o manifesto de Shoshanna é sobretudo uma oportunidade de reconstrução. Reconstruir faz parte dos ensinamentos judaicos de Tikun Olam, de reparo ao mundo. Mas, mais do que isso, é nosso papel como sociedade e não somente enquanto judeus, combater ao extremismo que tanto nos deteriora e é agente principal de tamanho fundamentalismo que nos cerca. 

Sendo assim, esse texto busca mais do que trazer um relato à tona. É também uma chamada para que pensemos quanto extremismo permeia nosso contexto judaico, onde estabelecemos a linha tênue entre tolerância religiosa e diversidade e se será esta linha tão tênue assim. Afinal, extremismo não cabe nos preceitos judaicos, e se presente em nossa comunidade, é necessário que repensemos para onde estamos indo enquanto sociedade.

Contudo, se há uma coisa certa é que, seja da esfera pública ou privada, da história ou da literatura, das ciências ou das artes; no judaísmo, islamismo, cristianismo ou no secularismo, essa com certeza não é a primeira vez que tentam apagar as mulheres.


Camila Crespin é estudante do segundo ano de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e ex-mazkirá do Conselho Juvenil Judaico Sionista do Estado de São Paulo.

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