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Não em nosso nome

Por Bruno Bimbi
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Sem qualquer debate, sem abrir o diálogo com diversos setores e figuras públicas do partido que há tempos vêm insistindo na necessidade de um espaço para refletir juntos sobre a questão, e passando por cima, de forma burocrática, dos consensos que tinham sido alcançados durante o VI Congresso Nacional do PSOL, a executiva nacional do partido aprovou uma lamentável resolução política sobre o conflito israelense-palestino que é uma coleção de clichés, desinformação e preconceitos que beiram o antissemitismo. 

A oportunidade não é fortuita. Se bem é verdade que a resolução ratifica uma linha política que foi, durante algum tempo, praticamente unânime nas instâncias partidárias, não é por acaso que, nos últimos anos, declarações e polêmicas sobre esse tema, antes esporádicas, tenham se intensificado tanto. Três fatos contribuíram a produzir esse rebuliço: a filiação ao partido de um importante grupo de jovens judeus sionistas de esquerda do Rio de Janeiro, que hoje têm inclusive um militante na direção municipal carioca; a viagem do deputado federal Jean Wyllys a Israel e à Palestina e seus posicionamentos públicos sobre o conflito, que contestaram a narrativa padrão da esquerda pró-BDS, e a reação de uma parcela importante da militância contra algumas atitudes antissemitas de uma corrente do partido que, entre outros lamentáveis episódios, protagonizou a queima de uma bandeira de Israel e publicou um texto cheio de falsidades históricas que chamava o ex-primeiro-ministro israelense Shimon Peres de “genocida”.

Sejamos sinceros: o que ocorria até pouco tempo atrás no PSOL em relação a este debate era que não havia debate. A imensa maioria da militância, dedicada de forma prioritária a outras questões mais prementes da agenda política nacional, simplesmente não tinha opinião sobre o assunto, ou apenas “concordava” por omissão com a linha política da direção – e as resoluções sobre Médio Oriente nos congressos partidários eram lidas enquanto parte dos delegados aproveitava para ir ao banheiro, e eram aprovadas sem discussão. A partir da visibilidade que os fatos acima elencados deram ao assunto, este passou a ser polêmico. A corrente do partido que queima bandeiras de Israel está furiosa com o ingresso dos militantes da juventude sionista e quer forçar de algum modo a saída deles – e envergonhá-los publicamente com declarações altissonantes e extremistas é uma boa tática. Cada declaração desse setor produz constrangimento na militância sionista de esquerda e em outros setores do partido e, ao mesmo tempo, empodera a direita da comunidade judaica, que usa esses textos para atacar nossos companheiros e companheiras – “afinal, o que vocês estão fazendo nesse partido antissemita?” 

A ultraesquerda “antissionista” (na maioria das vezes, eufemismo politicamente correto para não se assumir antissemita) e a ultradireita da comunidade judaica (inclusive apoiadores de Bolsonaro) têm um curioso acordo político implícito: ambos dizem, negando a própria história do sionismo, que não se pode ser sionista e de esquerda. A história que explique como uma parcela da esquerda se contagiou o antissemitismo que em algum momento foi patrimônio da ultradireita, ou ficou ancorada numa leitura anacrônica d’A questão judaica do jovem Marx, ou não entendeu que a guinada da União Soviética sobre Israel foi realpolitik – perversa, como tudo no estalinismo – ou simplesmente enlouqueceu, quem sabe, ainda precisa ser escrita. Em The Changing Face of Anti-semitism, Walter Laqueur propõe algumas respostas plausíveis, mas o fato é que alguns discursos fedem muito. Da velha conspiração judaica para dominar o mundo, passamos à conspiração sionista, e pouca coisa mudou.

Essa retórica começou a ser questionada no PSOL, provocando uma reação defensiva:  os queima-bandeiras querem deixar claro que a heresia cometida por Jean Wyllys e o ingresso de um grupo de jovens judeus ao partido não mudará nada, já que o debate está proibido. Uma atitude que já não constrange apenas seus alvos diretos. De fato, alguns episódios já tiveram impacto político em campanhas majoritárias, ao serem aproveitados pela direita, o que fez com que a resistência crescesse. 

Tudo isso provocou algumas consequências positivas e outras, na minha opinião, negativas. Dentre as primeiras, destaco o fato de que, pela primeira vez, o tema tenha sido objeto de preocupação e discussão. Houve um importante debate organizado pela Fundação Lauro Campos e os congressos estadual e municipal do Rio de Janeiro também tiveram que se debruçar sobre a questão. Pela primeira vez, uma resolução dos queima-bandeiras, que era uma provocação contra a militância judaica do partido, foi rejeitada por ampla maioria pelo congresso municipal do PSOL Carioca e passou por apenas uns poucos votos no congresso estadual, com a oposição de várias correntes e importantes figuras públicas. No congresso nacional, houve um saudável acordo entre as principais correntes do partido que, reconhecendo a falta de acúmulo político e programático coletivo e a necessidade de aprofundar o diálogo, ouvindo as diferentes posições que existem nos quadros partidários, concluiu que a melhor decisão dessa instância seria não se posicionar e propor a realização de seminários, debates e atividades de formação política com a participação das bases, em vez de resolver as diferenças contando crachás. De fato, essa posição, razoável e generosa, foi adotada pelas duas propostas de resolução sobre conjuntura internacional que foram para votação no congresso, uma das quais (a majoritária) foi defendida por mim junto a outro dirigente que pensa o contrário do que eu penso sobre quase tudo o que tem a ver com a situação do Oriente Médio.

Uma das consequências negativas foi esta triste e surpreendente declaração da executiva nacional, que foi uma reação burocrática ao consenso construído durante o congresso nacional e, de forma autoritária, pretende disciplinar e calar, abortando as iniciativas de diálogo, seminários, debates, etc., baixando linha, numa anacrônica manifestação do infame centralismo democrático. O resultado é um texto que não passaria uma prova de redação do vestibular. Outra consequência lamentável é que o setor antes hegemônico que agora se sente ameaçado radicalizou seu discurso, provocando danos talvez irreparáveis ao conjunto do partido e ofendendo muita gente que se identifica com as muitas, boas e razoáveis posições que o PSOL defende em infinidade de outros temas.

Logo no início, a declaração recorre a um velho recurso do discurso contra Israel: citar algum paper “das Nações Unidas” como argumento de autoridade. De acordo com a nota, um recente relatório da ONU “conclui que Israel pratica crime de apartheid contra o povo palestino”. Palavras altissonantes como “apartheid”, “limpeza étnica” e “genocídio” são frequentemente usadas com impunidade pela narrativa anti-Israel para provocar um efeito emocional que sirva como cala-boca de quem tem uma visão diferente do conflito. 

Seria muito saudável que a esquerda fizesse um debate aberto sobre cada uma delas, porque permitiria provar que seu uso não passa de propaganda. Isso não significa negar que a política de ocupação, os bombardeios contra populações civis, o muro e a ampliação dos assentamentos, promovidos principalmente pelos recentes governos de direita de Israel, entre outros fatos, são absolutamente repudiáveis, têm graves consequências humanitárias e são um sério obstáculo para a paz. Seria bom que também considerássemos o papel dos homens-bomba palestinos, do lançamento de mísseis desde prédios habitados e escolas, da onda de assassinatos de judeus a facadas, dos túneis de ataque construídos com o dinheiro que as autoridades palestinas recebem da comunidade internacional, do “prêmio” em dinheiro que a ANP paga aos terroristas que cometerem atentados ou forem presos em Israel por algum crime e a suas famílias, dos programas de TV para crianças em Gaza que ensinam a matar judeus e da retórica de lideranças da região que anunciam o extermínio dos “sionistas” e prometem “apagar do mapa” o Estado de Israel. Tudo isso faz parte de uma tragédia que tem como principais vítimas os palestinos, que sofrem ao mesmo tempo as retaliações e as medidas de segurança do Estado de Israel, por vezes contrárias aos direitos humanos, e a opressão de uma liderança palestina corrupta que, nos territórios sob seu domínio, suprimiu as liberdades individuais e a democracia, usa o dinheiro público para financiar o terrorismo, enquanto seu povo passa inúmeras necessidades e – notadamente em Gaza desde a chegada do Hamas ao poder – impôs um verdadeiro regime de terror, não muito diferente ao de outros países da região governados por ditadores e clérigos fundamentalistas. Mas o povo israelense também sofre as consequências do conflito, que frequentemente cobra vidas inocentes em atos desumanos promovidos pelo Hamas.

De um lado e do outro, há fanáticos e há pessoas que querem a paz. Ao menos do lado israelense, os que querem a paz podem se manifestar e se organizar politicamente, já que vivem em uma democracia. Qualquer pessoa que tiver visitado Israel e os territórios palestinos e tiver estudado o conflito sabe que ambas as sociedades são plurais, diversas e cheias de conflitos e contradições, longe da retórica dos extremistas, que sempre apresentam o outro como um bloco homogêneo e intrinsecamente mau.

Há muitas políticas do Estado de Israel que merecem ser repudiadas, mas falar em “genocídio” contradiz as mais elementares noções de estatística, tanto pelo relativamente escasso número de mortos que o conflito produziu desde 1948, de umas poucas dezenas de milhares, depois de passar por várias guerras com a participação de vários países, exércitos regulares e milícias não-estatais, quanto pelo considerável aumento da população palestina nesse período. Mas a principal razão é que “genocídio” é uma palavra que implica numa política deliberada de extermínio de um grupo inteiro de pessoas, por exemplo por razões étnicas ou religiosas (como o que os nazistas fizeram com os judeus, ou os otomanos com os armênios), e não há nada assemelhável neste caso. O número de vítimas civis nos territórios palestinos como consequência de ações militares israelenses, embora lamentável e em muitos casos produto de táticas de guerra que poderíamos considerar imorais e contrárias à lei internacional, é bem menor que em outros conflitos da região, dos quais Israel não participa, e não há qualquer evidência de que sejam produto de uma política destinada a exterminar essa população, o que de fato, pelo poder militar de Israel, seria possível, se houvesse essa política. E produziria uma guerra total, se acontecesse. É um delírio. Por outro lado, por volta de 20% da população de Israel é árabe-palestina (mais de um milhão de pessoas com cidadania israelense e ampla representação no parlamento, a Knesset, onde a Lista Conjunta árabe é a terceira maior bancada depois de obter 10,5% dos votos em 2015), e, de acordo com algumas pesquisas, a maioria desses cidadãos, se tivesse que optar, preferiria continuar morando em Israel a se integrar ao futuro Estado Palestino. 

Entre outras coisas, por isso mesmo, comparar o estatuto dos territórios palestinos com a apartheid é uma forçação de barra e uma banalização do que aconteceu na África do Sul – o que não quer dizer que não existam formas de discriminação repudiáveis contra os palestinos em Israel, como as que existem contra vários segmentos da população no Brasil e em outros países, mas bem menores que as que imperam de modo geral no mundo árabe e/ou muçulmano. O cerco militar de Gaza e a existência de diferentes áreas de segurança na Cisjordânia – que determinam a distribuição de atribuições de governo e policiamento no território sob a administração da ANP – são, da mesma forma que o muro, uma consequência nefasta do conflito e das políticas de defesa de Israel contra as ações terroristas em seu território, que precisa acabar pela via da negociação diplomática para um acordo de paz. 

O paradoxo é que essa retórica inflamada e desonesta, poluída por termos inadequados que procuram gerar um impacto emocional e interditar o debate, impede condenar seriamente muitas políticas dos governos de Israel que merecem, sim, ser condenadas – por exemplo, a extensão dos assentamentos – e que uma parcela importante da população judaica de Israel e dos judeus de modo geral também condena. Além, claro, de justificar a omissão de qualquer condenação, por exemplo, contra as atrocidades desumanas do Hamas e do Hezbollah – assim como contra as gravíssimas violações aos direitos humanos nos demais países da região –, entre outros temas tabu de uma parte da esquerda, que frequentemente reduz toda a problemática do Oriente Médio à “questão sionista”.

Mas eu quero pedir desculpas antecipadamente ao leitor porque, neste ponto, vou me deter longamente para falar sobre o tal “relatório das Nações Unidas” citado pela executiva nacional do PSOL, alguns de cujos termos tentei contestar nos parágrafos acima, porque me parece fundamental para entender uma das formas em que uma retórica tosca, desinformada e cheia de preconceitos sobre esse conflito ganha credibilidade.

O relatório citado, que fala sobre o “apartheid”, é identificado com a nomenclatura E/ESCWA/ECRI/2017/1, mas falta explicar o que é isso. ESCWA é a sigla para a Economic and Social Comission for Western Asia, chefiada pelo político e diplomata iraquiano Mohamed Ali Alhakim. ECRI significa Emerging and Conflict-Related Issues, uma divisão da ESCWA que é dirigida por Tarik Alami, um ex-professor da American University of Beirut que, em seu perfil no Linkedin, faz questão de declarar sua adesão ao grupo “Friends of Palestine”. E quem escreveu o relatório? De acordo com a introdução do documento, guiados por Alami e sob a coordenação do ativista libanês Rabi’Bashour, cujo perfil no Facebook está quase inteiramente dedicado à causa palestina, os autores do relatório foram os acadêmicos Richard Falk e Virginia Tilley.

Tilley é uma professora que apoia o boycott acadêmico contra Israel e escreve para o site The Electronic Intifada. Falk é um fanático antissemita. O secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou o relatório e pediu que fosse excluído do site oficial.

Mas a trajetória de um dos autores merece um relato mais extenso. Em 1979, após uma visita ao Irã para conhecer o aiatolá Khomeini, Falk escreveu para o New York Times que o movimento que levou o ditador islâmico ao poder era uma “revolução popular” que poderia oferecer um “modelo de governança” para o terceiro mundo. Tempo depois, perante a evidência dos crimes contra a humanidade do regime iraniano, que enforca os homossexuais, persegue os opositores, oprime as mulheres e financia o terrorismo internacional, Falk se retratou, mas essa não foi a última vez que suas declarações sobre os conflitos de Oriente Médio constrangeram as Nações Unidas, onde trabalha escrevendo relatórios contra Israel. Ele já justificou atentados terroristas em Boston, falando que se tratava de atos de “resistência”, afirmou que Israel planejava um “holocausto” contra a população palestina assemelhável ao que foi executado pelos nazistas contra os judeus (comparar Israel à Alemanha nazista, além de uma idiotice, é um lugar comum do discurso antissemita, que busca ofender os judeus com a tragédia mais horrível que padeceram em sua história) e disse que existia uma conspiração entre o governo americano e “a comunidade judaica organizada” para roubar as terras palestinas. Em 2011, ele fez um post no seu blog defendendo o ditador líbio Muammar al-Gaddafi, que enfrentava cargos por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional. No post, Falk incluiu uma charge que mostrava a imagem da “senhora justiça” guiada por um cão raivoso com uma kippa na cabeça e a sigla “USA” nas roupas. O cão raivoso judeu devorava um esqueleto humano, salivando sangue. 

Cão. Judeu. Sangue. A propaganda nazista em todo seu esplendor.

A insistente retórica antissemita do escriba da ONU que redigiu o relatório citado na declaração da executiva nacional do PSOL provocou protestos de diversas entidades de direitos humanos, entre elas Human Rights Watch, e dos governos do Canadá e do Reino Unido, entre outros países. O ex-secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anos antes daquele relatório, declarou que as expressões de Falk prejudicavam a credibilidade do organismo.

Mas não se trata de um caso isolado. Os documentos de órgãos das Nações Unidas controlados por representantes de monarquias absolutista e ditaduras teocráticas islâmicas de Oriente Médio, frequentemente redigidos por ativistas fanáticos de conhecida trajetória antissemita, são usados sistematicamente para dar legitimidade a diversas declarações políticas extremistas sobre o conflito israelense-palestino. O exemplo mais gritante é o que acontece com o Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Dos 47 países que integravam o conselho em 2017, quando pesquisei a respeito, em nada menos que 16, a homossexualidade é ilegal e gays e lésbicas podem ir para a cadeia ou, em 4 desses países, ser condenados à pena de morte. Em outros 8 países membro, as pessoas LGBT não são legalmente perseguidas, mas não tem nenhum direito básico reconhecido. Repito: no conselho “de direitos humanos”. Entre outros, integravam-no o reino da Arábia Saudita, onde as mulheres são quase-cidadãs quase-humanas (mas o país também integra, desde 2018, a Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher da ONU), os gays são executados em público e existe um “Comitê para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício” dedicado a perseguir minorias e impor a sharia. Também estavam os Emirados Árabes Unidos (onde também há pena de morte para os gays), Qatar (país acusado de financiar o terrorismo internacional) e outros campeões dos direitos humanos como Botsuana, Burundi, Egito, Etiópia, Gana, Índia, Indonésia, Quênia, Nigéria, Togo e Tunísia. Para não comprometer demais a extensão do texto, vou citar apenas o Código Penal de Burundi, mas poderia falar dos outros: “Quem tiver relações sexuais com outra pessoa do seu mesmo sexo será punido com prisão de três meses a dois anos e multa...” (art. 567). Também poderia citar outras violações aos direitos humanos da população LGBT (sobre a qual investiguei, mas com certeza também há outras populações afetadas) em outros países membros do Conselho, como China, Congo, Quirguistão, Mongólia, Paraguai e Coreia do Sul.

E o que esse Conselho de Direitos Humanos, integrado por violadores seriais dos direitos humanos, efetivamente faz? Pois é: publica relatórios contra Israel. Em 2017, o relatório anual do organismo não mencionava, obviamente, nenhum caso de violação aos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais e trans em nenhum país do mundo. Curioso; devem ter pouca informação. A palavra “homofobia” nem mesmo apareceu em nenhuma das 293 páginas, nem qualquer outra relacionada. Outros temas como racismo, xenofobia e violência de gênero eram mencionados pouquíssimas vezes, sempre de modo genérico e superficial. Em compensação, os termos “Israel”, “israelense/s”, “Palestina” e “palestino/a/s” somavam nada menos que 397 menções. Sim, eu conferi o número. No relatório de 2016, foram 368. Em 2015, 323. E em ambos casos também não houve menção às violações dos direitos humanos de LGBTs. Os relatórios não falavam, por exemplo, sobre a detenção de 35 mulheres trans pela “polícia moral” da Arábia Saudita, nem sobre 57 homossexuais arrestados no Egito e submetidos a “exames anais” para provar seu “crime”, nem sobre 40 homens presos na Nigéria, acusados de “atos homossexuais”, nem sobre o adolescente de 16 anos que foi condenado a 4 meses de prisão na Tunísia por não aceitar se submeter ao “exame anal”. São apenas alguns entre centenas de casos ocorridos em países do Conselho, apenas nos últimos dois anos. 

Eis a credibilidade dos tais “relatórios das Nações Unidas” contra Israel. 

Mas voltemos agora à declaração da executiva nacional do PSOL. É duro, constrangedor, para um militante do partido, ler um texto tão medíocre apresentado como posicionamento oficial sobre um tema tão complexo como o conflito israelense-palestino, que mereceria um pouco mais de pesquisa e reflexão. Vários aspectos dessa verdadeira tragédia humanitária que é a situação dos direitos humanos no Oriente Médio são sistematicamente ignorados por uma parcela da esquerda, que parece não ter opinião formada sobre a execução de homossexuais, a submissão das mulheres, a perseguição, encarceramento e assassinato de opositores, a falta absoluta de liberdades políticas e de expressão, os crimes de guerra, o extermínio de populações civis, inclusive com armas químicas, a inexistência de liberdade religiosa e a permanência no poder de regimes extremamente autoritários em diversos países dessa região; mas, surpreendentemente, faz algumas dezenas de declarações por ano sobre o conflito israelense-palestino (que parece ser o assunto mais relevante de sua agenda política internacional), e, quando as faz, recorre a todo tipo de clichés e superficialidades.

Entre outros tópicos, a declaração faz referência, reiteradas vezes, aos refugiados palestinos, que estima em 5 milhões, e defende seu direito ao retorno. Vamos nos deter um instante na cifra e no termo. Estima-se que, durante a guerra declarada contra Israel por um grupo de países árabes em 1948, ano em que o Estado judeu declarou sua independência um dia antes do fim do Mandato Britânico, por volta de 700 mil habitantes árabes da Palestina (o termo “palestino” era então usado para se referir a todos os que habitavam lá, inclusive os judeus) tiveram que fugir ou foram expulsos, e se refugiaram em diversos países árabes da região, episódio que é lembrado como a nakba (catástrofe) pelos palestinos. A nakba foi a maior tragédia da história desse povo e teve consequências gravíssimas para essa imensa massa de pessoas durante décadas, além de ter sido um dos fatores que contribuiu a consolidar sua identidade nacional e política como palestinos. Contudo, se foram 700 mil, por que é que hoje se fala em 5 milhões?

Entender isso é indispensável para entender o tamanho da catástrofe humanitária. Acontece que, entre 1948 e até o início da década de 1970, também como consequência do conflito israelense-palestino, uma quantidade semelhante de judeus foi expulsa de suas casas ou teve que fugir de diversos países árabes e/ou muçulmanos. Estima-se que, até 1945, havia entre 700 e 900 mil judeus vivendo nesses países, dos quais hoje restam menos de dez mil. Em alguns desses países, zero. Os dados aqui apontados são um brevíssimo resumo, mas existe farta bibliografia a respeito, por exemplo, o livro La tierra más disputada, de Joan B. Culla, um excelente trabalho de investigação histórica sobre o conflito. A diferença entre os judeus expulsos do mundo árabe/muçulmano (a distinção é necessária, já que nem todos os países muçulmanos são árabes) e os palestinos expulsos de Israel é que, enquanto os primeiros foram majoritariamente acolhidos no estado judeu, onde ganharam cidadania e começaram uma vida melhor (por isso não querem voltar), boa parte dos palestinos recebidos pelos países árabes foram mantidos por estes sob o estatuto eterno de “refugiados”, que hoje é estendido a seus descendentes. É por isso que se fala em 5 milhões, contando netos e bisnetos.

A perpetuação do estatuto de refugiados obedeceu a diversas razões políticas e até econômicas. Alguns desses países não queriam reconhece-los como cidadãos por motivos demográficos, ou por conflitos étnicos, e, de modo geral, os governos da região e parte da liderança política palestina entendeu que manter essa condição de “refugiado” que reivindica o retorno, mesmo que ele nunca aconteça, serviria para a perpetuação do conflito com Israel, além de render uma boa grana de fundos internacionais. É por isso que, inclusive nos territórios hoje sob a Autoridade Nacional Palestina (ou seja, governados por palestinos), há ainda “campos de refugiados”, que não são mais do que bairros precários, semelhantes a uma favela semi-urbanizada no Brasil. Em 2016, visitei um desses campos em Belém. A narrativa do refugiado diz que essas pessoas e toda sua descendência um dia voltarão triunfantes aos locais onde vivia antes de 1967, talvez quando Israel deixe de existir. É quase impossível que isso algum dia aconteça.

Provavelmente pela mesma razão, durante os 19 anos que se passaram entre 1948 e 1967, nenhum Estado Palestino foi fundado nos territórios que Israel ocuparia nesse último ano, na Guerra dos Seis Dias, quando os governos árabes atacaram novamente o estado judeu e, mais uma vez, foram derrotados. Até então, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental estiveram sob o domínio jordaniano e a Faixa de Gaza, após um período de dez anos administrada por um governo estabelecido pela Liga Árabe, ficou sob o mando de um governo militar egípcio. Nem a Jordânia nem o Egito cederam esses territórios para que os palestinos fundassem seu Estado, apesar de que a resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas tinha previsto a partição do antigo Mandato Britânico em um estado judeu e outro árabe, solução que os países árabes rejeitaram e, por isso, declararam a guerra a Israel em 1948. E, depois do armistício, esqueceram o Estado Palestino.

Se a questão dos refugiados judeus já foi resolvida há muitos anos por Israel, a questão dos refugiados palestinos – para a qual existe inclusive uma agência especial da ONU, a UNRWA, diferente da que cuida de todos os demais refugiados do mundo e com um orçamento de centenas de milhões de dólares por ano que não tem servido, depois de décadas, para que a vida desses seres humanos melhorasse significativamente – permanece no limbo. Corrupção, desvio de fundos, descaso e intencionalidade política têm condenado esses palestinos a uma situação desesperadora. Recentemente, a guerra na Síria provocou a emigração de por volta de 60 mil refugiados palestinos, que fugiram para o Líbano e a Jordânia, e em Gaza, enquanto o grupo terrorista Hamas – que tomou o poder depois de vencer as eleições de 2006 e nunca mais permitiu que os palestinos votassem – usa os fundos que administra para financiar atentados, a população vive em condições miseráveis e ainda sofre o cerco militar israelense, que desde que devolveu esse território à ANP, viu como ele se transformava em um quartel-geral militar da milícia islâmica, o que reforçou politicamente a linha dura da direita israelense e deu apoio popular a ideias como o muro, que ao mesmo tempo que piorou a vida dos palestinos, reduziu drasticamente o número de atentados terroristas em Israel.

Uma coisa é clara: não haverá solução ao conflito se a questão dos refugiados não for resolvida, mas como? Que todos os descendentes dos refugiados de 1948 “retornem” às cidades onde moravam seus antepassados, hoje sob domínio israelense, é impraticável – porque suas velhas casas não existem mais e o lugar onde se erguiam está habitado por outras pessoas, da mesma forma que acontece com os locais onde habitavam os judeus expulsos dos países árabes e muçulmanos. E, mesmo que não fosse assim, o Estado judeu jamais aceitaria essa solução porque, por razões demográficas, significaria no curto prazo que os judeus passassem a ser minoria em Israel. Ou seja, Israel deixaria de ser um estado judeu, ou, para continuar sendo, deixaria de ser um estado democrático. 

Para compreender a necessidade dos judeus de ter um Estado que possam chamar de seu – o sionismo nasce, basicamente, como expressão política dessa reivindicação nacional –, é necessário estudar a história do antissemitismo no mundo (a obra de Laqueur é boa para isso) e, principalmente, na Europa, que não começou com o Holocausto nazista, mas teve nele sua máxima expressão, depois da qual os sonhos de Herzl deixaram de parecer uma fantasia e se tornaram, para a imensa maioria dos judeus no mundo, quer dizer, dos sobreviventes, uma questão de vida ou morte.

Conta o brilhante escritor israelense Amos Oz em Como curar um fanático que, quando seu pai era um menininho na Polônia, antes da chegada de Hitler ao poder na Alemanha, as ruas da Europa estavam cobertas de grafites, “Judeus, voltem para a Palestina”. Cinquenta anos depois, quando seu pai – que sobreviveu ao nazismo porque emigrou a Jerusalém antes da guerra – decidiu revisitar a Europa, novos grafites tinham substituído os anteriores, “Judeus, fora da Palestina”. Talvez essa história simples seja um bom resumo sobre a necessidade do Estado judeu, e por isso, do sionismo. E, se não for suficiente, recomendo visitar os museus do Holocausto de Berlim e Jerusalém. Que Israel deixe de ser um lugar seguro para os judeus não é uma opção, e o que aconteceu a eles nos demais países da região, assim como os discursos de extermínio de diferentes governos árabes e islâmicos, e também das lideranças palestinas, é um sinal do que poderia acontecer se os judeus passassem a ser minoria em Israel. De fato, aqueles que defendem o “retorno”, na maioria dos casos, também defendem o fim do Estado de Israel, cujo direito a existir nunca aceitaram. Se tivessem aceitado, provavelmente já existiria um Estado Palestino, talvez com as fronteiras anteriores a 1967. 

Por outro lado, a ideia de que o país deixe de ser uma democracia é uma barreira intransponível para a maioria de sua população. Então? Os acordos de Genebra, celebrados por representantes da sociedade civil de ambos povos e oferecidos aos políticos israelenses e palestinos como caminho para um futuro acordo de paz definitiva, propõem uma solução concreta e realista para o problema dos refugiados palestinos, assim como para a questão de Jerusalém, distante da retórica inflamada da ultradireita sionista e dos queimadores de bandeiras de Israel. Vale a pena ler com atenção: é uma proposta longa, detalhada e complexa – eu sei, palavras de ordem sempre são mais fáceis de decorar.

A situação de cada um dos territórios ocupados por Israel, alguns posteriormente devolvidos e outros não, excede o tamanho deste texto, mas também há abundante bibliografia a respeito. Os erros históricos, a mesquinharia e a falta de vontade política de diversos governos israelenses, dos países árabes e muçulmanos e das lideranças palestinas, que após diversos avanços e recuos foram incapazes de solucionar o conflito, também é uma discussão à parte. No meio, os acordos de Oslo; o assassinato do então primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, por um fanático da ultradireita israelense; a morte de Yasser Arafat; a onda de atentados terroristas do Hamas que, depois do assassinato de Rabin, fez com que a centro-esquerda israelense, que defendia os acordos de paz, perdesse apoio popular, facilitando a vitória eleitoral de Netanyahu; o fracasso do plano de retirada unilateral de Gaza de Ariel Sharon, que facilitou a ascensão do Hamas ao poder na região, etc. É uma história bem mais complicada do que uma nota da executiva de um partido, discutida por cinco minutos e publicada na web, e requer muita leitura e uma vocação maior por dialogar com os diversos atores envolvidos no conflito, algo que boa parte da esquerda tem se mostrado incapaz de fazer. 

E isso me leva ao erro mais importante do documento do PSOL: sua declaração de apoio ao boycott contra Israel, conhecido internacionalmente como BDS. Além de ser inócuo do ponto de vista do dano à economia de Israel (uma das mais pujantes da região), já que suas ações, na prática, são meramente propagandísticas – campanhas de pressão ou difamação contra qualquer artista que visite Israel, tentativas de impedir a participação de professores israelenses em congressos acadêmicos, etc. –, o boycott produz uma série de efeitos perniciosos: alavanca o discurso de ódio contra os judeus no mundo inteiro, provocando as mais variadas manifestações de antissemitismo; legitima internamente a direita israelense, que ganha consenso numa sociedade ameaçada e alvo de difamação e tentativas de isolá-la do mundo, e, quero enfatizar este ponto: impede que a esquerda do resto do mundo dialogue com a sociedade civil israelense e inclusive palestina. 

No meu livro O fim do armário conto como foi a campanha de desprestígio e difamação contra Jean Wyllys por ter visitado Israel. Não vou me estender a respeito disso aqui, mas gostaria de frisar uma questão. Se até visitar Israel – mesmo que seja convidado pela esquerda da comunidade judaica, mesmo visitando também a Palestina – é visto quase como uma traição pelos setores da esquerda que apoiam o BDS, se qualquer tipo de diálogo com a esquerda sionista é interditado e suspeito, se até ‘sionismo’ é palavrão, o resultado é uma nota como a que foi aprovada pela executiva nacional do PSOL. 

As pessoas que discutiram essa nota não podem ir a Israel, nunca conversaram com a esquerda sionista e, por isso, provavelmente não saibam que há setores importantes da sociedade israelense que se opõem ao governo Netanyahu, que são contra os assentamentos, que são contra a ocupação dos territórios anexados em 1967 e que apoiariam um acordo de paz com os palestinos que implicasse em concessões de ambos os lados. Da mesma forma, também não dialogam com os setores da sociedade palestina que são contra o boycott e tem outra visão sobre o conflito e sobre cada um dos temas discutidos aqui. O BDS, na prática, funciona como um cerco sanitário que impede que o diálogo questione alguma das premissas básicas do discurso que culpa Israel, os sionistas e os judeus de modo geral por tudo o que acontece por lá. Propostas como os acordos de Genebra não fazem parte nem do menu de leituras básicas sobre o conflito, que se limita aos textos alinhados com o discurso mais extremista, que nega o direito à existência de Israel e cheira a judeofobia. 

A nota do PSOL fala, por exemplo, sobre a liberação dos “presos políticos” palestinos, mas não faz referência a nenhum caso concreto. Não tenho dúvidas de que existam prisões injustas e até políticas – como no Brasil –, mas sempre que me encontrei com algum texto que, além dessa reivindicação genérica, mencionasse nomes, procurei saber quem eram essas pessoas e, na maioria das vezes, o que encontrei foi uma longa lista de crimes que incluíam até o assassinato de crianças e de famílias inteiras a facadas ou a explosão de bombas contra alvos civis em território israelense. Como argentino, não posso deixar de lembrar os atentados contra a AMIA e a Embaixada de Israel em Buenos Aires.

Que tal qualificar a discussão? Que tal analisar cada caso e fazer uma campanha pela libertação daqueles que realmente estejam presos injustamente? Que tal fazer a mesma coisa com os presos políticos do Irã, da Arábia Saudita e de outros países da região? Que tal condenar, também, a execução de homossexuais nesses países – e inclusive em Gaza? Não em Israel, o único país da região cuja legislação reconhece quase todos os direitos civis da população LGBT, além de, claro, não criminalizar a homossexualidade. Falo também sobre isso no meu último livro, respondendo à perversa retórica do BDS e seus aliados, que acusam os ativistas LGBT que não aderimos a seu discurso de termos sido cooptados pela maquiavélica “propaganda rosa” dos sionistas, o pinkwashing. Um argumento que reúne, numa simbiose perversa, antissemitismo e homofobia.

E chego aqui ao último ponto que gostaria de ressaltar da nota do PSOL: a última frase do texto – outra palavra de ordem – diz: “Por um Estado palestino laico e não racista”. Eu concordo. É um objetivo louvável e justo. Como defensor da solução dos dois Estados, também espero que o Estado Palestino seja laico e não racista, e se possível, democrático. Contudo, ao menos no curto prazo, não estou otimista. O embrião de Estado Palestino que já existe – formado pela ANP e pelo governo do Hamas em Gaza – é tudo menos democrático. E, com a exceção de algumas cidades, é tudo menos laico. Não racista? Basta ler o que os políticos palestinos dizem, em seus discursos públicos, sobre os judeus.

E o mais assustador é o que as pesquisas feitas no mundo árabe e muçulmano em geral e nos territórios palestinos em particular dizem sobre a opinião dos seus habitantes. Por exemplo, pesquisas do Pew Research Institute realizadas entre a população muçulmana de diversos países revelam o que a maioria deles pensa sobre um “estado laico”. Nos territórios palestinos, 87% concorda com a afirmação “A mulher deve obedecer seu marido”, 89% acredita que “a homossexualidade é um comportamento moralmente errado”, 93% também considera moralmente errado o sexo fora do matrimônio, 66% é a favor da pena de morte para os muçulmanos que abandonarem o Islã, 89% apoia que a sharia seja reconhecida como lei oficial do Estado e 49% diz que deveria ser aplicada inclusive a não-muçulmanos, contra 44% que pensa que deve valer apenas para muçulmanos. Porcentagens parecidas se repetem na maioria dos países árabes e em todos os de maioria muçulmana no Oriente Médio, na Ásia e na África.

Eu suspeito que se os autores da nota da executiva fossem a Gaza e distribuíssem um panfleto com essa frase sobre o Estado laico seriam fuzilados. 

Alguns fanáticos islamofóbicos dirão que essas pesquisas mostram que o Islã é uma religião violenta e de ódio. Alguns fanáticos antissemitas dirão que tudo isso é culpa do sionismo. Eu acho que a resposta é bem mais complexa e envolve questões religiosas que de fato não deveriam ser tabus, mas também fatores políticos, sociais, educacionais, etc. Também é importante considerar um fator crucial: na maioria dos países onde essas pesquisas foram realizadas, não existe democracia e nem liberdade de expressão e muita gente pode ter respondido o que se espera que responda, por medo. Também muita gente pode acreditar em tudo isso porque nunca na vida foi sequer exposta a uma visão de mundo diferente. Em Gaza, as crianças palestinas assistem a programas de TV infantil onde ensinam, como um jogo, a matar judeus, e nas escolas, o terrorismo é glorificado. E isso, também, é um elemento fundamental a se considerar, inclusive, na análise do conflito israelense-palestino. Há uma minoria fanática, também, na sociedade israelense, mas, sendo como é, uma sociedade democrática, o fanatismo é contestado por outros: na imprensa, na política, na academia, no cinema, na literatura e na rua, livremente. Não é fanatismo o que se ensina na escola. Se o mesmo acontecesse em Gaza, talvez as pesquisas dessem outros resultados.

De fato, outra pesquisa do mesmo instituto, realizada em 2017, mostrou por exemplo que 52% dos muçulmanos que moram nos EUA aceita a homossexualidade (60% entre os millennials), porcentagem bem mais alto que entre os evangélicos (34%). Ou seja, não apenas a religião, mas também o sistema político influencia a maneira em que as pessoas se posicionam frente a questões que dizem respeito à laicidade do Estado e da sociedade. Repito: é tudo mais complexo do que as palavras de ordem. Não é uma história de mocinhos e bandidos.  E inclusive a legítima esperança numa futura Palestina laica e democrática depende de muitas outras coisas que a nota do PSOL desconsidera, como se, por um passe de mágica, derrotado o malvado ente sionista, a Palestina laica e livre fosse brotar da terra. Eu espero que um dia a liberdade e a laicidade também cheguem o resto dos países da região, infestada de ditaduras e teocracia, mas também sei que isso não se resolverá da noite para o dia.

Talvez os leitores deste texto discordem de mim em muitas questões, e talvez estejam certos em algumas. Talvez possam me convencer disso. Mas, para isso, em vez de boycott e resoluções aprovadas por um politburo supremo cancelando as primeiras tentativas de debate com diversidade de vozes sobre todos estes temas que, felizmente, começaram a ocorrer no PSOL, o que precisamos é que o debate continue e nos ajude a complexificar nosso entendimento de um tema que a esquerda está acostumada a resumir em dois parágrafos recitados de cor. Sim, é mais difícil, eu sei, mas é mais saudável.

E, além disso, a gritaria antissemita dos extremistas não se aguenta mais.

O século XX deveria ter nos ensinado alguma coisa.

Chega de notas bizarras da executiva nacional, por favor. Não em nosso nome. Não nos envergonhem mais.



Bruno Bimbi é jornalista, doutor em Letras/Estudos da Linguagem (PUC-Rio), ativista gay e integrante da executiva estadual do PSOL-RJ. 

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