Colunistas • Bruno Bimbi • Pinkwashing? Israel e os direitos LGBT

Pinkwashing? Israel e os direitos LGBT

Por Bruno Bimbi
Whatsapp

Os judeus são tão malvados que fizeram um país que trata bem os gays numa região onde nos encarceram, nos torturam e nos matam. Mas eles não nos enganam: fazem isso para que as pessoas preocupadas com os direitos humanos não percebam como são degenerados. Fingem que são a favor da liberdade e da igualdade e contra a homofobia, e até provam, para ocultar do mundo as suas verdadeiras e vis intenções.

Porque são judeus, e ainda por cima sionistas!

Não, eu não enlouqueci. Tampouco virei nazista, nem me filiei a um partido de ultradireita. Isto é um resumo, obviamente irônico, da teoria da conspiração conhecida como pinkwashing, segundo a qual o verdadeiro motivo pelo qual Israel é o único país do Oriente Médio onde os gays não são tratados como escória – tendo, inclusive, reconhecido boa parte de nossos direitos civis e eliminado diversas formas de discriminação legal e social – é que os “sionistas” (palavra que significa outra coisa, mas é frequentemente usada como eufemismo politicamente correto para “judeus de merda”) usam os direitos das pessoas LGBT para fazerem “propaganda”, “lavagem rosa”. 

No meu último livro, O fim do armário, que fala sobre a vida de lésbicas, gays, bissexuais e trans no século XXI, incluí um capítulo que, a partir de uma crítica ao conceito de pinkwashing, fala sobre os preconceitos que afetam a gays e judeus, essa gente que foi tão maltratada, em quase todo o mundo, ao longo da história. Irmãos no ódio que as maiorias têm de nós por tanto tempo, entendemos um pouco uns dos outros. 

Este texto é um breve antecipo do que o livro diz.



Comecemos por alguns fatos concretos. Israel está longe de ser o paraíso dos LGBT, e ainda há direitos civis básicos – como o casamento – que suas leis não reconhecem, mas se dividíssemos o mundo numa escala de 1 a 5, em que a nota 1 é dada aos países onde há pena de morte para os gays, como o Irã e a Arábia Saudita — no livro tem, por exemplo, um capítulo que explica o que diz o Código Penal iraniano —, e 5 àqueles onde a população LGBT tem todos seus direitos civis reconhecidos e o combate contra o preconceito e a discriminação é política de Estado, como a Holanda ou a Argentina, Israel teria nota 4, como muitos países da Europa. Coisa destacável numa região onde poucos chegam a 2. Cruzando a fronteira, podemos ser presos ou mortos, o que não justifica o que falta, mas coloca em perspectiva.

As relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo deixaram de ser ilegais em Israel em 1988, embora a lei anterior contra a “sodomia” já não se aplicasse, por decisão judicial, desde 1963. Aquela lei homofóbica, que castigava com até dez anos de prisão quem “for para a cama com outra pessoa de forma antinatural”, vinha da época do Mandato Britânico e era similar à que existia em outras colônias e no próprio Reino Unido. Na Inglaterra e em Gales, as relações sexuais entre dois homens maiores de 21 anos em ambiente privado só deixaram de ser ilegais em 1967. Na Escócia e na Irlanda, a criminalização da homossexualidade continuou até 1981. Desde que nasceu como Estado, Israel avançou, como os países ocidentais, na descriminalização e normalização jurídica das relações homossexuais, enquanto o resto do Médio Oriente era dominado por fundamentalistas homofóbicos e misóginos e ditadores islâmicos que perseguem os gays e tratam as mulheres pior que os seus animais domésticos.

Como eu explico detalhadamente no livro, o Estado judeu tem diversas normas e decisões judiciais contra a discriminação por orientação sexual, foi o primeiro da Ásia que reconheceu a coabitação não registrada de casais do mesmo sexo – mais recentemente, em 2017, a Suprema Corte do Taiwan legalizou o casamento gay –, e pouco a pouco, mediante diversas leis e decisões judiciais, reconheceu os direitos dos casais homossexuais: tratamento igual nas declarações de impostos, herança, tutela compartilhada dos filhos biológicos do companheiro ou companheira, adoção conjunta, direitos migratórios, etc., embora para alguns desses benefícios tenham que provar uma união de fato por determinado período. 

Quer dizer, esses casais têm quase os mesmos direitos que os outros. 

Com relação às pessoas trans, a legislação reconhece o direito de mudar o nome e o sexo nos documentos, tanto para quem realizou cirurgias de redesignação sexual — que podem ser feitas no país — como para quem não o fez, embora um dos requisitos seja apresentar um certificado médico de “disforia de gênero”, uma patologia inexistente utilizada em boa parte do mundo para classificar as pessoas trans como doentes. 

Na minha opinião, essas e outras conquistas, mesmo aquelas que continuam incompletas, podem se explicar por vários motivos. Em primeiro lugar, pelo peso de uma das “leis básicas” do país – Israel não tem constituição –, a “Lei da dignidade e da liberdade humana”, que orientou decisões judiciais relacionadas com os direitos da população LGBT. 

Em segundo lugar, porque, ao contrário de outros países da região, Israel é um Estado democrático que tem nas suas origens os ideais de justiça e liberdade dos judeus europeus que escaparam dos pogroms russos, do antissemitismo polonês e da Europa Oriental e, finalmente, fugiram ou sobreviveram ao horror do nazismo, e isso permitiu à maioria da sociedade, num ambiente político e cultural de liberdade de expressão e de imprensa e direito à livre organização política e social, entender a legitimidade das lutas de outras minorias. Questões como o voto feminino, o aborto e a legalização do consumo pessoal de maconha também são exemplos de como o país avançou a ritmos ocidentais, enquanto a região regredia. 

E, em terceiro lugar, porque Israel tem cidades muito religiosas, como Jerusalém, enquanto outras reivindicam sua cultura laica e cosmopolita, como Tel Aviv; e essa tensão entre metrópoles liberais e redutos conservadores vai provocando mudanças, algo impossível em países onde um ditador ou um comitê de clérigos decide o que se pode dizer, ler, ver, ouvir, saber, pensar, e até o que se pode fazer na cama. Nas ditaduras, não é impossível ocorrer um avanço nos direitos LGBT, mas apenas se os ditadores, por algum motivo, se convencerem de que convém a eles. Nas democracias, o debate social, a liberdade para se informar e se expressar, a disputa pacífica pelo poder entre diferentes partidos e setores ideológicos, a informação sem censura sobre o que ocorre em outros lugares do mundo, o livre acesso e a livre produção de conhecimento científico, a ampliação do acesso à educação e a luta política dos movimentos sociais vão construindo o caminho para que as coisas aconteçam. E é crucial que a população LGBT participe do processo, sem medo de morrer se sair do armário.

Uma das principais dívidas da democracia israelense: o país ainda não tem casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque não tem casamento civil, um problema que vem desde a declaração da independência e foi resultado das negociações políticas que aconteceram na época entre os setores progressistas e conservadores da comunidade judaica local. Israel reconhece os casamentos religiosos celebrados pelos diferentes credos (judeus, muçulmanos, cristãos e outros) e esta é a única forma de se casar; um grave atraso. E a lei de união civil para pessoas não religiosas, aprovada em 2010, excluiu os casais do mesmo sexo ao definir a palavra “casal”, em seu artigo 1, como “um homem e uma mulher”.

A questão do casamento igualitário ainda é uma conta em aberto, devido à oposição de judeus ultra religiosos, tão fundamentalistas e homofóbicos como os das outras religiões do Livro. Em 2006, a Suprema Corte decidiu que os casais israelenses do mesmo sexo que se casarem em outro país – ou emigrarem já casados – podem registrar seu casamento em Israel, o que abriu uma porta para alguns, mas não foi além. Houve projetos de lei para aprovar o casamento gay na Knesset, mas não foram aprovados, e, nos últimos anos, o tema apareceu nas campanhas de candidatos da esquerda radical e do centro liberal, como o caso de Yair Lapid. É uma luta que continua.

Quer dizer, a pesar de todos os avanços, também há lacunas, inaceitáveis em qualquer lugar e ainda mais num país democrático. Lacunas provocadas, em grande medida, pela hegemonia política conquistada nos últimos tempos por partidos de direita e ultradireita no parlamento israelense, como o Likud e seus aliados, fortalecidos pelo fracasso do trabalhismo e pelo impacto eleitoral do aguçamento do conflito com os palestinos nas prioridades de boa parte da maioria judia do país, cercada e sempre ameaçada de ser “apagada do mapa”. Sabe-se: em qualquer sociedade, o medo e a guerra geralmente empurram para a direita, mas isso também é provocado pela incapacidade de boa parte da esquerda mundial de se posicionar frente ao conflito israelense-palestino de uma forma menos binária e marcada por preconceitos antijudaicos. Não existem melhores aliados do Likud e inimigos do progressismo israelense (e da paz) que o Hamas e os ativistas do BDS. E, cada dia mais poderosa, a direita israelense, aliada ao ultraconservadorismo religioso, impede avanços civilizatórios que poderiam ter chegado mais cedo em outras circunstâncias políticas. 

Como em outros lugares do mundo.

Nesse contexto, os governos conservadores, como o de Netanyahu, tem sido hipócritas: enquanto, dentro do país, não ajudam ou impedem o avanço, lá fora, nos seus discursos em fóruns ou para a imprensa internacional, reivindicam como mérito próprio as conquistas que vieram do Judiciário ou da pressão da sociedade civil. Esse discurso dúplice, que também vemos em outros lugares – inclusive no Brasil –, é o que muitos críticos de Netanyahu e do Likud caracterizam como pinkwashing. Coisa típica de políticos hipócritas, que existem em todo o mundo. O problema é quando esse conceito, na boca dos defensores do boicote internacional contra Israel e outras campanhas antissemitas, é distorcido e envenenado de ódio, até deixar de ser uma crítica política a Netanyahu ou a outros políticos e líderes religiosos ultraconservadores, e se tornar um “argumento” usado para questionar a existência de Israel, distorcer perversamente o significado do sionismo, imaginar teorias conspiratórias delirantes que parecem ter saído da velha propaganda nazista ou difamar o conjunto do povo judeu, tanto israelense como de qualquer outro lugar do mundo.

E, além do mais, para ser homofóbico.

Sim, homofóbico. Porque cada vez que um ativista gay, por contradizer de alguma forma o discurso dos setores da esquerda que odeiam Israel, é acusado de ter sido “influenciado pelo pinkwashing”, o que está sendo insinuado é que nós, homossexuais, somos tão estúpidos, burros e egoístas que não seríamos capazes de ter uma opinião própria sobre o conflito israelo-palestino, sobre a situação do Médio Oriente, sobre Israel ou sobre qualquer coisa sem que essa opinião esteja inteiramente determinada por nossa orientação sexual. Que pensamos com os genitais e somos incapazes de ver além, porque o único que nos interessa no mundo somos nós mesmos. Bichas burras, vítimas da “conspiração sionista”. 

Eu não sei se eles se dão conta da barbaridade que estão afirmando.






Bruno Bimbi é jornalista, doutor em Letras/Estudos da Linguagem (PUC-Rio), ativista gay e integrante da executiva estadual do PSOL-RJ. 

Inscreva-se