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70 anos de Israel: dilemas e perspectivas

Por Bernardo Sorj
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Palestina era o nome dado pelos gregos e depois pelos romanos ao território que se estende entre o Mar Mediterrâneos e o rio Jordão. A denominação se origina no povo Filisteu, mencionado no texto bíblico como uma das populações locais. No dia 29 de novembro, se cumpriram 70 anos desde que as Nações Unidas votaram pela partilha de Palestina - na época sob controle britânico -, em dois estados, um árabe e outro judeu. 

A partilha não foi aceita pela liderança palestina e pelos países árabes vizinhos, que iniciaram uma guerra, logo depois da proclamação do Estado de Israel, no 14 de maio de 1948, às vésperas da saída das tropas britânicas. O objetivo da guerra era eliminar a população judaica da Palestina. No fim do conflito, que culminou num armistício, o Estado de Israel expandiu o controle territorial em relação ao plano da Partilha, de 56% do território para 80%, e a cidade de Jerusalém ficou dividida num lado israelense e noutro árabe, sob controle da Jordânia.

Na guerra de 1948 morreu 1% da população judaica de Israel, onde é recordada como a Guerra da Independência.  Do lado árabe, 750.000 pessoas saíram do território de Israel, seja para fugir da guerra ou, em diversos casos, como resultado da ação intencional de comandantes israelenses. Os árabes se referem àquela guerra como Nakba, a “catástrofe”. Assim, como expressão de suas experiências, cada uma das partes construiu narrativas divergentes do mesmo acontecimento.

Sintetizando uma história complexa, o território palestino restante foi anexado em 1950 pelo Reino Haxemita da Transjordânia, que se transformou no Reino Haxemita da Jordânia, e a faixa de Gaza ficou sob controle do Egito. Como consequência da guerra de junho de 1967, esses territórios passaram ao controle israelense.

Passados 70 anos da partilha, da independência e 50 da guerra de junho de 1967, muita água passou pela ponte. De uma postura inicial de total negação da existência do Estado de Israel e intenção declarada de jogar os judeus no mar, alguns países, como o Egito e a Jordânia, passaram a ter relações diplomáticas com Israel, e parte das lideranças palestinas expressaram sua disposição a um acordo de paz. Recentemente outros países árabes sunitas se encaminharam para postura mais conciliatórias, pois mudanças geopolíticas fizeram do mundo muçulmano xiita, liderado pelo Irã, o principal inimigo dos sunitas. Não que os riscos militares de Israel tenham desaparecido. O regime dos aiatolás no Irã encontrou na eliminação de Israel uma justificativa para estender sua influência na área, e o regime sírio mantém pendências territoriais com Israel e uma aliança estratégica com Irã.

A formação de todos os estados nacionais e suas fronteiras, quiçá sem exceção, é produto de guerras, repressão e massacres. Esta afirmação é uma constatação, não uma justificativa do passado. Afirmações de setores de esquerda, de que Israel foi produto de uma época colonial é tão válida como inócua, pois ela se aplica à boa parte do mapa-mundi. Ninguém, a não ser fanáticos, podem desejar uma guerra mundial para alterar as fronteiras estabelecidas, a maioria delas, inclusive na Europa, em tempos recentes. Do passado podemos aprender para não repetir erros, mas sem anacronismos, pois o futuro se constrói a partir das realidades e possibilidades do presente. O desejo de fazer regredir a história não permite avançar projetos orientados por valores com possibilidades de serem realizados.      

O novo contexto internacional, em princípio, favorece uma solução para o conflito israelense-palestino. Infelizmente a guerra produziu arrogância de um lado e um discurso de vitimização do outro, e, em ambos, envenenou a alma e turvou a razão. A ocupação israelense, como toda ocupação, foi marcada pela opressão e repressão da população dos territórios ocupados, o avanço de colônias ilegais e fortalecimento de posições nacionalistas xenofóbicas em setores da população. Do lado palestino, aumentou a influência de grupos extremistas, como o Hamas e o Jihad Islâmica, dificultando que as lideranças mais moderadas abandonem a reivindicação -  insustentável do ponto de vista de sua viabilidade política - de retorno a Israel dos refugiados, que hoje, com o crescimento demográfico, somam mais de 5 milhões. 

O ponto de partida para encontrar uma solução ao problema israelense-palestino é o princípio de realidade informado por valores. Corresponde ao Estado de Israel, como poder ocupante e com enorme capacidade militar, acabar com a política de assentamentos e propor uma solução justa, que assegure um futuro de dois estados vivendo em paz, tendo como base as fronteiras anteriores a guerra de 1967.


Bernardo Sorj é professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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