Colunistas • André Lajst • Ilan Pappe e a falta de compromisso com a verdade

Ilan Pappe e a falta de compromisso com a verdade

Por André Lajst
Whatsapp

Quem for ao cinema nas próximas semanas, terá a oportunidade de assistir o filme “Denial”, baseado no caso verídico da historiadora do holocausto Deborah E. Lipstadt. O longa mostra como o acadêmico britânico David Irving contesta a obra da professora e protege em uma obra sua, através do prestígio da pesquisa acadêmica, que o holocausto nunca existiu, que câmaras de gás não eram usadas para matar judeus e que o genocídio de 6 milhões de judeus, é uma farsa.

O caso se tornou polêmico no mundo, porém Irving perdeu o julgamento que ele mesmo começou, pois academicamente não conseguiu provar que seu livro - que nega o holocausto - foi baseado em fatos e dados verídicos.

Não é prática incomum que professores se utilizem da academia e de títulos de doutores ganhar relevância, publicarem matérias e disseminarem narrativas falsas ou inexistentes para influenciarem ou tentarem reescrever a história.

Esse é o caso do israelense Ilan Pappe. Professor acadêmico na Inglaterra, e autor do polêmico livro “Limpeza étnica na Palestina”. Pappe é declaradamente contra a existência de Israel como um país judeu e democrático. Também é contra a existência de uma paz justa e a solução de dois estados para dois povos.

Em recente entrevista à Folha, no último dia 24, Pappe descreve Israel como um país que “colonizou terra estrangeira” e o acusou de ter feito “limpeza étnica na palestina”. Porém, Pappe ignora na sua entrevista diversos fatos históricos, conhecidos e comprovados, que colocam a séria acusação de limpeza étnica em questão e justamente por isso é contestado por outros historiadores, como por exemplo, Benny Morris. 

Israel foi fundado em 1948 após a ONU ter divido a região no ano anterior na Partilha da Palestina. A liderança sionista aceitou a decisão apesar da liderança árabe ter rejeitado a mesma. A independência de Israel foi declarada durante uma guerra civil que se transformou em uma guerra generalizada e a invasão de cinco exércitos árabes no novo Estado de Israel. Esta guerra não foi um “massacre” conforme descreve Pappe em sua entrevista. Sem dúvida pessoas morreram dos dois lados. Israel perdeu 1% de sua população ou 7 mil pessoas entre civis e militares. Pappe não cita em sua entrevista, que diversas vilas judaicas foram destruídas em Jerusalém e Gush Etzion e a população judaica local foi expulsa ou morta.

A narrativa que Pappe usa em suas palestras ou entrevistas, assim como em seus livros, ignora a complexidade histórica da época, coloca grupos ideológicos de forma homogênea, o que foge completamente da realidade, e trata os protagonistas do conflito de forma simplista, como se houvesse apenas um grupo de opressores e um grupo de oprimidos. A historia da fundação de Israel foi reduzida e simplificada de maneira a adaptar-se à ideologia politica e histórica do próprio autor, Pappe. Israel não “resolveu ocupar” mais território em 1967. Israel reagiu a um ataque do Egito, Síria e Jordânia, que, historicamente comprovado, planejaram uma guerra para destruir o país. Falharam e, em defesa, Israel acabou por conquistar territórios que estavam sendo utilizados no ataque à sua soberania. A Guerra dos Seis Dias, descrita por Pappe como “expansão da colonização” de Israel, foi uma guerra de defesa para Israel, não de ataque.

Infelizmente o jornalista que o entrevistou não fez perguntas mais especificas e importantes a Pappe, como:
Por que o livro “Limpeza Étnica na Palestina” não foi reeditado para corrigir os erros que foram levantados por diversos professores e historiadores ao redor do mundo?
Por que Pappe insiste em dizer que os judeus chegaram à região da Palestina devido à perseguição na Europa e ignora por completo que um milhão de judeus foram expulsos dos países árabes, estes sim vítimas de uma limpeza étnica?  
Por que omitiu a presença de milhares de judeus em Jerusalém, Tiberíades, Safed e Hebron, durante séculos e até hoje?

Diante do exposto, é possível concluir que é necessário ter muito cuidado ao entrar em contato com o trabalho acadêmico de Pappe. Em diversos momentos de nossa história recente foi possível observar que discursos como este - que distorcem fatos comprovados - foram poderosos e colocaram à prova a legitimidade de existência de um povo, uma nação, uma etnia. Foram baseados em mentiras graves - a exemplo do que mostra o filme Denial - que extermínios em massa e massacre se fizeram possíveis.

Em tempos de “fake news” e de ameaças à paz, o trabalho de Pappe é um desserviço aos que buscam entendimento diante da perplexidade da realidade que vivemos e aos que buscam a paz entre Israel e a Palestina.


André Lajst é Diretor Executivo do Instituto Brasil Israel




André Lajst é cientista político

Inscreva-se