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O dilema e o desafio de inserir o contexto brasileiro dos bnei anussim no debate histórico e político da diáspora

Por Ana Monique Moura
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A colonização do Brasil, quando aportada no Nordeste, trouxe em seus navios muitos judeus forçadamente convertidos ao cristianismo. Eram os chamados cristãos-novos, que, para escaparem da inquisição, realizada pelo Santo Ofício de Portugal, foram expulsos da Península Ibérica, sendo, porém, vigiados pela Igreja, confiscados e forçados a abandonarem sua judaicidade, daí que ficaram também conhecidos por “forçados” e seus filhos, por “filhos de forçados”: os “bnei anussim”, também conhecidos por marranos ou criptojudeus. Os estudos sobre o assunto estão ganhando força, no entanto, parece ainda manifesto apelar para o interesse maior no debate, num campo da prática, seja na comunidade judaica brasileira, seja entre pesquisadores e historiadores externos. Não podemos, de toda forma, dizer que temos um antigo estudo sobre o tema no Brasil. Ainda é um tema jovem e que, apesar disso, especialmente, graças às pesquisas de Arnold Wiznitzer, Elias Lipner, Sônia Siqueira e Anita Novinsky, ganha um vetusto pano de fundo de fomento às pesquisas e estudos integrados ao tema.

Os judeus sefarditas foram as molas da produção econômica e intelectual, tanto da Espanha como de Portugal. Eles transformaram as cidades em verdadeiros polos cosmopolitas de cultura e tiveram um papel pioneiro na difusão de livros clássicos da cultura judaica (o Zohar, por exemplo) no período medieval espanhol, em que conviviam em grande paz e diálogo com os muçulmanos e cristãos. Alijados desse frutífero cenário com sua expulsão da Espanha e com a inquisição de Portugal posterior, aqueles que escapavam, chegavam, em grande parte, no Brasil, na sua maioria, muitas vezes confiscados e na miséria, destinados a viverem em verdadeiras terras inóspitas e silvestres.

Mesmo distantes do binóculo incisivo dos inquisidores em terras portuguesas, muitos foram, na "terra brasilis", perseguidos e também forçados a posteriormente retornarem para Portugal, para serem queimados na fogueira. Mas muitos também ficaram, formaram famílias, fundaram comércios, engenhos, e outras fontes de renda, trabalho e sobrevivência. Do comerciário mais modesto às senhoras e senhores de engenho, passando até por trabalho similar ao trabalho escravo, os bnei anussim foram se propagando em terras na sua maioria nordestinas e tecendo sua história do litoral até os rincões do alto sertão, em fugas para terras distantes, com pouca água e chão seco. Assim, a história dos bnei anussim, é a história da própria formação do Nordeste, que não é outra coisa que, como dizia Ariano Suassuna, o “coração do Brasil”. Muitos dos bnei anussim se espalharam por outras regiões do Brasil e lá formaram imensas árvores genealógicas, que hoje se desdobram em muitos habitantes de todo o país. Não conhecer a história dos bnei anussim, nesse contexto, é desconhecer a história do Brasil.

Dos bnei anussim, aqui deportados, muitos mantiveram as práticas, assim chamadas, “judaizantes”, se inserindo no contexto do “criptojudaísmo”, porém foram extremamente perseguidos por isso. Os filhos dos convertidos foram obrigados a praticarem o catolicismo sob a imposição da possibilidade de perseguição da tortura e da inquisição, o holocausto judaico na Ibéria.

A população do Nordeste é constituída de maneira opulente pelos bnei anussim, os descendentes desses judeus-cristãos-novos refugiados da Península Ibérica. Por mais que se fale em bnei anussim em outros lugares do Brasil, é no Nordeste que encontramos sua concentração1. Portanto, é onde encontramos muitos dos costumes da cultura judaica preservados. Nomes de muitas cidades nordestinas remetem a nomes presentes na Torá ou fazem referências a fonéticas hebraicas, os hábitos alimentares preservam, em muitas famílias, a prática kosher completa, noutras uma parte ou algo dela. A preservação quantitativa dos costumes varia de família para família. Mas no núcleo populacional do nordeste você pode encontrar um rico conjunto de hábitos judaicos. Dessa forma, se você perguntar a muitas dessas pessoas sobre as fontes de certas práticas, boa parte não saberá dizer que se trata de um costume do judaísmo. Muitos são os costumes preservados. Envolvem não só rituais estritamente religiosos, mas também resquícios dos ensinamentos sefarditas da cabala, da ética, do simbolismo, da moralidade e afins. As pessoas geralmente praticam tais hábitos se munindo de outras justificativas - marcas de uma história de hostilidade aos judeus, diante da qual a prática judaica deveria ser realizada secretamente e mascarada de catolicismo. Dessa forma, praticamente esquecidos de si próprios, no que tange especialmente à sua origem, a maioria dos bnei anussim mantém, de maneira resistente, as práticas basilares da cultura judaica, envolta nas brumas de uma história de perseguição, esquecimento forçoso e medo, que os fazem ocultar até hoje, mesmo sem saber o motivo, a justificativa plenamente judaica de seus hábitos por baixo da máscara católica, desencadeando um “catolicismo” peculiar, capaz de ser encontrado, com mais força, nos sertões do nordeste. São os descendentes dos “forçados”. Tornaram-se cristãos, muitas vezes - e sintomaticamente - fervorosos, mas grandes preservadores, conscientes ou não, da cultura judaica, lançando um cenário no mínimo complexo, rico e matizado para a sociedade brasileira.

O reconhecimento e a consciência da ancestralidade cultural que guarda o sentido desses hábitos estão ganhando cada vez mais força. Um crescente número de pessoas está reivindicando o seu retorno ao judaísmo também. Muitos encaram o processo de retorno ou Teshuvá e se integram totalmente ao universo judaico de maneira consciente, declarada e incisiva no seguimento religioso. Outros, agora cientes de sua origem e do significado dos costumes de suas famílias, optam por se munirem do reconhecimento histórico de sua identidade e de sua cultura, mesmo que não se interessem pela prática ortodoxa da religiosidade judaica2.

Aqui há um fator desafiador: nesse cenário, em que pesquisas historiográficas e antropológicas sobre os bnei anussim ganham volume e num momento em que muitos deles estão se (re)integrando à cultura judaica de maneira, agora, declarada, o rabinato-chefe de Israel é relutante em reconhecê-los. E, embora haja rabinos que se solidarizem com o contexto dos bnei anussim, a instância superior do judaísmo ortodoxo segue na contramão.

O cenário é ainda mais matizado por posturas diversas sobre o papel ou a concepção dos bnei anussim no contexto de Israel e seus desdobramentos no conceito ou percepção de estado-nação, só pra citar um importante exemplo dentre outros possíveis no tema dos “sionismos”. Há várias visões, e nem sempre dialogáveis, sobre o que seja e o que deva significar o papel do estado de Israel segundo o ponto de vista dos bnei anussim. E isso perpassa a religiosidade, a cultura, o mito, a política, a memória e o imaginário em sua diversidade no contexto da diáspora. Não se pode dar um axioma simples que possa dar conta da complexidade desse cenário.

Parece necessário resgatar na memória o acontecimento do congresso sionista do ano de 2020. Dentre as várias temáticas ali debatidas, também se definem pautas sobre a diáspora judaica e o seu impacto em Israel. Então, fica a pergunta: por qual motivo os bnei anussim brasileiros passaram tão despercebidos entre as frentes de discussão a partir do contexto da diáspora? Por enquanto, me aporto apenas em reconhecer, com alguma tentativa de leniência a essa lacuna, que as divulgações sobre as pesquisas acerca dos bnei anussim, embora recentemente bem divulgadas, ainda não possuem seu lugar, limitando ainda a referência merecida ao tema. Contudo, ao mesmo tempo, essa justificativa me parece pouco sólida. Em outras palavras, não satisfaz. Acaba assim que surge, tem pouca vida, é superficial e não sabemos até que ponto tal superficialidade pode ser aceitável.

Além disso, a causa dos bnei anussim só terá fôlego se for aceito, de bom grado e de boa coragem, que se trata de um tema de dissidência frente ao establishment da ortodoxia judaica3. Indo mais fundo: não se trata da questão sobre ser ou não ser judeu, mas das motivações que causam o recuo em relação aos bnei anussim, no percurso de uma negação ou invisibilidade de sua história. Além disso, vale considerar: os bnei anussim não são pessoas que de um dia para noite decidiram ser judeus e começaram a praticar, ludicamente, sua cultura e/ou religião. Tampouco pessoas aleatórias se afirmando judias por possuírem um costume judaico isolado aqui e ali na família ou um sobrenome possivelmente judaico. Se trata de preservadores históricos da cultura judaica e do sentido de seu povo, diante de séculos de perseguição e silenciamento, guardadores de saberes, tradições orais, manifestações culturais ricas de mensagens e códigos. A negligência aos bnei anussim, à preservação de sua história e ao debate de contexto diaspórico judaico, pode, inclusive, se aproximar, quando muito, a um tipo de antissemitismo dentro da própria cultura judaica, como parte de uma ignorância vergonhosa: o fazer “vista grossa”, o aplicar da “indiferença”, o “não querer saber”, que guarda a motivação de negação prévia à alteridade e diversidade dentro de sua própria cultura, a negação do diálogo e do dialógico. Invocar esse tema é, antes, fugindo de qualquer redução ao essencialismo metafísico ou étnico, a postura de assumir a potência da discussão frente às possibilidades temáticas outras, ao invés do silenciamento fraquejante.

Não seria a hora, “a necessária hora”, de manifestar mais atenção ao contexto dos bnei anussim e escutar as suas diversas vozes e posturas como forma de inserir isso nos interesses de um rico debate diaspórico e no contexto Brasil-Israel? Por exemplo, as frentes democráticas e progressistas dos judeus brasileiros podem olhar com mais perspicácia, abertura e empatia para os bnei anussim, e tecer uma história de luta e demanda conjunta, dentro do que invocam por “social”, “histórico”, “cultural”, “diverso”, “plural” e tantas outras palavras tão gastas e vazias quanto menos concretas. Seria tanto melhor e menos desconfortável que isso não precisasse de um apelo. Então, torço para que esse tipo de apelo se torne “vencido”, na espera de uma alegria futura de não precisar explicitar repetidas vezes a obviedade, se manifestar pelo mínimo e chamar para isso a atenção.


1Referente aos bnei anussim em outras regiões, também encontramos estudos ligados à presença de cristãos-novos na região de Minas Gerais (há quem diga que seja a região com maior opulência, mas isso é bastante controverso). Podemos falar em bnei anussim na região do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e assim por diante, muito embora, se comparadas ao Nordeste, tais regiões representam minoria da fixação judaica. Ademais, diante desse contexto, parece importante considerar que o nordeste brasileiro sempre foi alvo de preconceitos e ideias pré-formadas por parte de muitos habitantes de outras regiões do país. Não seria isso um resquício ou um sintoma nascido do antissemitismo colonial, que perdura no inconsciente coletivo? Falava-se muito, no período colonial, daqueles que eram “os judaizantes das capitanias de cima”. Inclusive, isso foi o título de um livro de Elias Lipner, de 1969, sobre o judaísmo no Brasil. A descoberta de que essa região é tomada por descendentes de judeus não desfavorece essa suspeita.

2Veja essas posturas sobre os bnei anussim no Nordeste. Elas exibem o perfil da parte ortodoxa que nega a causa bnei anussim. https://www.youtube.com/watchv=uhKny1X-GJYhttps://www.youtube.com/watch?v=-r7E9Whjt5k&t=618s. Para contrapor o que foi dito nesse último vídeo, lembro que Anita Novinsky escreveu um ensaio sobre o mito dos sobrenomes marranos, portanto, não há generalização de sobrenomes.

3Há exceções e esse assunto não pode ser reduzido a uma dicotomia rígida. Por exemplo, alguns membros ortodoxos acolhem a causa dos bnei anussim. No Brasil, existe o movimento Sinagoga Sem Fronteiras, que fortemente acolhe a causa. O representante do Likud no Brasil, Fábio Rosenfeld, manifesta também acolhimento. Inclusive, ele foi o único que mencionou os bnei anussim no debate das chapas sobre as eleições do último Congresso Sionista. Para ver, acessar o endereço https://www.youtube.com/watch?v=g7cS050ZQjQ, em 1:47:00. Mas foi desconfortável aos que, com eu e tantas outras pessoas, não comungam com o Likud e se inserem no interesse do tema dos bnei anussim, em nenhum instante do debate, encontrar entre as outras chapas uma referência ao tema.


Monique Moura é doutora em Filosofia, professora no Departamento de Fundamentação da Educação da UFPB e pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Diáspora Atlântica dos Sefarditas (GPDAS) da UFS.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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