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Shalom, chaver

Por Amanda Hatzyrah
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“Esta é uma manhã de choque e de tristeza”. Assim você inicia seu discurso em “Como curar um fanático”. Esta foi uma manhã de choque e tristeza, Amos Oz, mas desta vez porque recebemos tristes a notícia de sua morte. Amos, meu querido amigo, hoje, poucos dias após o aniversário de morte de meu avô, eu não recebi a notícia de forma diferente. Sentei para tomar o café da manhã e abri a página do Haaretz. A manchete me fez saltar da cadeira, e o susto, que confundiu também meu companheiro, verteu-se em lágrimas. A manhã que prometia um dia iluminado se fechou, e agora chove enquanto escrevo.


Chaver, a sua morte é mais que a morte de uma personalidade e de um corpo em si, a sua morte é a morte de uma narrativa, de uma voz pela paz, e dói ter que escrever sobre isso, mas a escrita às vezes é uma dor necessária, e esse foi um dos ensinamentos que você nos legou através do seu pensamento humanista e militância política.


A menos de uma semana da viagem de campo que faremos com o IBI para Israel, você era uma das pessoas que possivelmente encontraríamos. Poxa, chaver... Perder a força do seu discurso em tempos de trevas como os nossos, é perder um pouco do fôlego, mas nos levantaremos e seguiremos adiante, como na música de Arik Einstein.


Nesta mesma semana, reli Sipur al ahava ve choshech (Uma história de amor e trevas), revi também ao filme homônimo e comentei com uma amiga que havia retomado o sonho de fazer alyiá, “Ainda há esperança, e serei vizinha de Amos Oz, no Negev”, rimos em vislumbrar a possibilidade. Que triste coincidência. Através da sua literatura e também das ideias que você registrou com a “pena política”, como disse certa vez, conheci a sua Jerusalém, conheci Israel e a História de sua formação, e assim também fui formada. Lendo tantas de suas histórias e tentando traduzir algumas outras, passei a sentir saudades de um lar onde nunca estivera, até desembarcar pela primeira vez no início deste ano no Ben Gurion, na terra que o viu nascer 79 anos atrás.


De tanto lê-lo, tornei-me sua amiga íntima. Você diria que sou uma má leitora, que não deve-se buscar na obra dados biográficos de seu autor. Apesar de concordar, confesso que muitas vezes vislumbrei tomar café com cardamomo e conversar sobre política e soluções para a paz no Oriente Médio com você, chaver, e qual foi minha surpresa quando soube que viria a São Paulo, ano passado. Foi num mês frio de 2017, que você esteve em nossa casa, a Casa do Povo, no Bom Retiro, para o lançamento de mais um livro. Distraída, esbarrei em você, que caminhava até a cadeira onde se sentaria para conversar conosco. Meus olhos brilhavam enquanto o escutava responder pacientemente a perguntas que provavelmente já respondera uma dezena de vezes. Em meio a piadas, você nos ensinou que o humor é a arma mais poderosa contra o fanatismo e que devemos lutar contra todas as formas de intolerância. E que alívio foi descobrir que posso amar Israel, mesmo quando não gosto, e compreender a complexidade que envolve um estado e sentimentos tão contraditórios, que podem e devem coexistir.


No ano seguinte, em minha viagem a Israel, você foi meu guia durante as minhas tardes de andanças sem rumo pelas empoeiradas ruas de Jerusalém: Gueúla, Zichron Moshé, Strauss, Haneviim, King George, Machané Yehuda… A minha Jerusalém não mais literária. E também durante as minhas caminhadas noturnas no gélido e estrelado deserto da Judeia.


Amos, sua trajetória foi uma história de amor contra as trevas do fanatismo e intolerância recrudescentes no mundo. Seu pensamento permanecerá para nós como um legado, que seguiremos com a coragem que você carregava em seu nome.

O que mais dizer se não há palavras mais simples? Shalom chaver.


Amanda Hatzyrah é integrante do Coletivo Megamá e da Frente Feminista Judaica. Milita na Frente de Cursinhos Populares de São Paulo e é estudante da USP, onde pesquisa temas relacionados à literatura e cultura judaica, língua hebraica e sociedade israelense.

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